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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Alma no Lodo



Sinopse: Caesar Enrico Bandello (Edward G. Robinson), um assassino profissional, e seu motorista cúmplice Joe Massara (Douglas Fairbanks Jr.) chegam em uma cidade grande e são contratados por um mafioso. Porém, após um roubo e um assassinato, as coisas tomam rumos imprevisíveis. (Fonte: Cine Players)

Motivo para assistir: Os primeiros mafiosos do cinema

Estreia – 25/01/1931 (nos EUA) – A união de dois atores (Edward G. Robinson e Douglas Fairbanks Jr., esse em papel que quase foi de Clark Gable) e um diretor (Mervyn LeRoy, então com trinta anos em seu primeiro grande filme) que conquistaram seu espaço nos primeiros anos de Hollywood é o principal atrativo de Alma no Lodo. Elevada algumas décadas depois à obra fundamental do cinema americano por abordar no início da Grande Depressão a necessidade de ascensão social, a produção de 1930 envelheceu muito no aspecto visual, revelando-se um filme pouco atrativo, até mesmo por conta das dezenas de produções que abordam o mesmo assunto. Mesmo assim, a AFI elegeu uma de suas falas umas das 100 Maiores Frases do Cinema Americano e Alma no Lodo o nono filme de Gângster mais importante de todos os tempos.

A dupla de roteiristas Francis Edward Faragoh e Robert N. Lee foi indicada ao Oscar pela adaptação, perdendo para Cimarron. Ambos tiveram carreiras curtas e apenas mais um sucesso na carreira. O primeiro no mesmo ano com Frankenstein e o segundo quase quinze anos depois com Capitão Kidd. O autor do livro, W.R. Burnett não gostou do fato de não haver no elenco nenhum italiano. Mesmo assim, o filme foi a estreia mais bem sucedida da história da Warner até então.

A trama construída em cima da vida de Rico/Little Caesar – homem vaidoso, que alimentou o sonho de se tornar um grande mafioso a despeito do descrédito de seus chefes – aborda de maneira eficiente a máquina corrupta por trás de toda grande cidade. Apesar da cara de mau de Edward G. Robinson jamais encontrada em outro ator, o protagonista ganha simpatia pelo seu desafio à liderança – e por não ser totalmente desprovido de escrúpulos. Nota 7




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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Do Mundo Nada se Leva



Estreia – 23/8/1938 (nos EUA) – A maneira otimista com a qual Frank Capra tratava as vítimas da profunda crise financeira nos Estados Unidos da década de 1930 foi a responsável por dar o diretor um espaço nobre na lista dos grandes da Era de Ouro de Hollywood. Do Mundo Nada se Leva não envelheceu com o mesmo status de grande clássico como outras obras já comentadas no blog (Aconteceu Naquela Noite e A Felicidade Não se Compra), sendo lembrada mais pelo prêmio principal na noite do Oscar de 1939 do que por sua qualidade.

Foram sete as indicações para o longa, que perdeu em Roteiro, Atriz Coadjuvante, Fotografia, Edição e Som; porém, além do melhor Filme, deu a Frank Capra seu terceiro Oscar em quatro indicações como diretor (ele perdeu em 1934 por Dama por um Dia, venceu em 1935 por Aconteceu Naquela Noite e 1937 por O Galante Mr. Deeds. Seria indicado ainda em 1940 por A Mulher Faz o Homem e 1947 por A Felicidade Não se Compra). Porém, não foi tão fácil sair vencedor naquele ano, eis que o Sindicato dos Diretores e o dos Produtores estavam em guerra à época da cerimônia e ameaçavam um grande boicote. Capra era justamente o Presidente da Academia e não só contornou o problema como foi o grande ganhador – cujos prêmios, por sinal, devem ser questionados, já que é de se perguntar se membros da Academia não se sentiriam intimidados a votar no seu Presidente. Do Mundo Nada se Leva bateu Com os Braços Abertos e Jezebel, que deu Oscar de atuação para Spencer Tracy e Bette Davis, respectivamente; além de As Aventuras de Robin Hood, clássico em Tecnicolor que imortalizaria Errol Flynn.

O carinho dado a essa obra pelo diretor merece ser ressaltado. Ao assistir à peça que deu origem a Do Mundo Nada se Leva um ano antes em Nova York – quando lá esteve para o lançamento de O Horizonte Perdido – imediatamente desejou filmá-lo. Azar do chefão da Columbia Harry Cohn, que perdeu a queda-de-braço com Capra por duas vezes: na conturbada edição final de Horizonte Perdido e no pagamento da alta quantia (até para os dias de hoje) de duzentos mil dólares pelos direito de Do Mundo Nada se Leva.

Talvez levado por uma onda de perfeccionismo, Capra utilizou mais de cem mil metros de filme, quando um filme nessa época gastava menos de três mil. Já a quantidade de personagens, que na peça é de 19, no filme é de 153. Numa delas, a dançarina de balé perturbada vivida por uma talentosa Ann Miller de apenas quinze anos, é possível observar o grau de exigência do diretor. A atriz faz passos de balé completos e, dizem, sofreu tanto nas gravações que vivia chorando de dor quando não estava em cena. James Stewart ficou responsável em fazer a vida da menina um pouco melhor e enviava caixas e mais caixas de doces para ela. Quando o longa foi lançado, a peça já havia vencido o prêmio Pulitzer de 1937 e estava sendo encenada na Broadway. Seus autores foram George S. Kaufman, roteirista de alguns dos clássicos dos Irmãos Marx, como Uma Noite na Ópera; e Moss Hart – roteirista de um dos meus filmes preferidos da década de 1940, A Luz é para Todos e da versão de 1936 de Melodia na Broadway, obras que renderam indicações ao Oscar ao segundo.

Talvez a culpa seja do trato dado à trama, hoje um imenso clichê por culpa de uma infinidade de obras posteriores. Trata-se de um o roteiro sobre chefe de família que se nega a vender sua casa para milionário que deseja construir ali uma grande indústria. O milionário Sr. Kirby, vivido por Edward Arnold, precisa conviver não só com a negativa da venda da família Sycamore, mas também com o noivado de seu filho Tony (um jovem James Stewart em vias de ir para a Segunda Guerra Mundial – ele foi o primeiro a se alistar na Força Aérea em1941 – e em sua primeira parceria com Capra) e a filha do homem que não aceita se mudar Alice (Jean Arthur, que voltaria a trabalhar com Capra e Stewart em A Mulher Faz o Homem).

Capra não aprofundou pontos que costumeiramente destrinchava em seus filmes, como os pontos negativos na criação de monopólios, principalmente na indústria bélica. Até mesmo a relação familiar e o choque de comportamentos entre os Kirby, alta sociedade carregada de pré-conceitos e os Sycamore, felizes no meio de suas diferenças e maluquices, poderia ser mais explorada. Uma das cenas mais interessantes, (mostrada no vídeo ao final do texto) a do contador mostrado como homem-máquina, que larga tudo para viver seu sonho de ser inventor na casa da família de Alice, é aquela que mais aproxima a mensagem de Do Mundo Nada se Leva a de A Mulher Faz o Homem e A Felicidade Não se Compra. O roteirista Robert Riskin estava bem melhor em Aconteceu Naquela Noite (que lhe rendeu um Oscar) sendo dele também A Dama por um Dia, O Galante Mr. Deeds e Órfãos da Tempestade – filmes que lhe renderam indicações, todos do mesmo nível de Do Mundo Nada se Leva.

Até mesmo as piadas soam datadas e o humor físico remete a outra obra do diretor, Este Mundo é um Hospício, lançada seis anos depois e hoje também menos citada. Como sempre Capra levava às telas o que o cidadão norte americano desejava ver. Em momentos de crise, a valorização de bens extrapatrimoniais, como a lembrança da esposa que já se foi. Além disso, a diminuição a confiança em governos e nos mais endinheirados (o Sr. Kirby orgulha-se em não pagar impostos nos últimos vinte e dois anos) ao mesmo tempo em que ideais são trocados por uma vida mais estável.

Do Mundo Nada se Leva só é entendido quando se imaginava a frustração de um povo acostumado a viver com qualidade, consumindo sem moderação ao passar por uma grave crise. Infelizmente no atual transtorno econômico que América do Norte e Europa hoje vivem não há pessoas com a qualidade de Frank Capra para produzir conteúdos desta natureza (ou talvez seja muito cedo para afirmar tal coisa).

Protagonistas como o Sr. Kirby, que só venceu na vida para abdicar de coisas simples dela (como tocar gaita) sempre alcançam uma digna redenção em exemplares da Era de Ouro. Mesmo assim, a opção por privilegiar a comédia e aproximar o longa de uma peça de teatro (até porque foi adaptada de uma), com ação quase toda acontecendo em um só lugar, faz de Do Mundo Nada se Leva uma obra menos atraente aos olhos dos cinéfilos atuais, apesar dos nomes de peso citados nesse texto que participaram de alguma forma do filme. Mesmo assim, ainda não o suficiente para ser ignorada. Nota 6




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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Émile Zola



Estreia – 2/10/1937 (nos EUA) – A Warner estava se tornando o estúdio mais popular de Hollywood e colhia frutos da aposta de trazer biografias de personalidades mundiais do século XIX. A Academia já havia reconhecido a qualidade desses filmes dois anos antes, com A História de Louis Pasteur. O longa, dirigido por William Dieterle e com Paul Muni no papel principal, foi indicado ao prêmio de Melhor Filme e venceu nas categorias de Ator, Roteiro e Roteiro Original (Muni também venceu o prêmio por sua atuação no Festival de Veneza).

Émile Zola (também chamado de A Vida de Émile Zola) repete a dobradinha Dieterle-Muni mais uma vez para contar a história do escritor francês. O diretor alemão, que desembarcou em Hollywood em 1931 e já chegou chutando a porta com Kismet (refilmado treze anos depois), se juntaria a Charles Laughton para a versão definitiva de O Corcunda de Notre Dame e produziria bons clássicos como Salomé e No Caminho dos Elefantes. Porém, com Émile Zola ele conseguiria sua única indicação ao Oscar. O ator seria lembrado pela quarta vez em cinco anos, mas sua filmografia não seria tão extensa quanto o seu talento. Porém, ele ainda seria apontado mais uma vez em 1960 por Rebeldia de um Bravo. Engraçado que Émile Zola foi filmado de trás para frente já que Muni tinha a barba branca que depois seria escurecida nas últimas cenas (que na verdade são as primeiras, entendeu?).

É claro que Émile Zola fica prejudicado ao ser comparado com Ziegfeld, O Criador de Estrelas, último filme que assisti antes dele. São duas biografias primorosas, mas a qualidade da produção que conta a vida do produtor de teatro americano (indiscutivelmente menos relevante culturalmente que Zola) deixa a Warner no chinelo. O encanto começa a se quebrar quando os créditos, ao anunciar que fomos transportados para a Paris de 1862, informa que há fragmentos ficcionais na história a ser contada. Isso envelhece o filme, já que é uma difícil tarefa hoje em dia identificar quem realmente existiu em meio àqueles personagens (exclui-se Paul Cézzane e Émile Zola).

As imagens do DVD revelam que a produção do longa vencedor do Oscar de 1938 é menor (ou o trabalho de preservação dos negativos foi menos eficiente que os três ou quatro vencedores anteriores). Só deve ser impressão porque o longa saiu vencedor dos prêmios de Filme, Roteiro e Ator Coadjuvante (Joseph Schildkraut) e foi indicado para Diretor, Ator, Direção de Arte, Assistente de Direção, Som, Trilha Sonora e Roteiro Original. É verdade que os jovens Cézzane e Zola vivendo de sonhos na Paris de meados do século XIX desperta imediato interesse. Porém, a carreira do escritor começa a entrar nos eixos quando sua mãe e noiva conseguem um emprego em uma editora, onde ele poderia ganhar com o exercício de sua arte. Mesmo vivendo com dificuldades, Zola continua escrevendo sem abandonar seu estilo, na estética do desagradável e retratando os sofridos drama da população mais humilde.

Com esse ideal de descrever as mazelas do povo, demonstrando um fortíssimo sentimento de humanidade, Zola atinge o sucesso com o lançamento de Nana, mulher com drama pessoal muito forte. Até esse ponto somos presenteados com uma atuação contida, primando pela serenidade, de Paul Muni. Nessa primeira metade ainda há espaço para discutir o que o roteiro chama de “espólio da guerra” e que no fundo é aquela mensagem de sempre de um país entrar em um conflito baseado em factoides e mentiras (já tratados aqui no blog quando comentamos Cavalgada, Sem Novidades no Front, entre outros).

Na sequencia da carreira, Zola lança A Derrocada, Germinal e vai publicando outros livros, sempre com um discurso politizado e colecionando sucessos. Porém, essa biografia ligeira prepara o terreno para tratar de um fato específico da vida do escritor. É nesse momento que o roteiro se perde um pouco. A montagem e edição esquece que estamos diante da vida de Émile Zola e joga na tela o episódio de um vazamento de informações no Exército Francês. Os oficiais condenam um bode expiatório para manter a credibilidade das Forças Armadas perante o povo e o coitado vai para o exílio. Essa ponta solta deixa a impressão de que a história do longa poderia ser um pouco melhor. Paul Cézzane é pouco explorado mas é da boca dele saem pérolas como a teoria de que o artista deve permanecer pobre, para que seu estômago e talento não fique inchado e empanturrado. (mesmo que você não concorde).

Depois disso o roteiro se limita a mostrar a luta da esposa do oficial e de Zola para, três anos depois, provar a inocência do homem. Utilizar o escritor como último recurso fez com que este perdesse sua credibilidade perante a nação francesa, que opta por acreditar até o fim no discurso oficial. É justamente motivado pelas palavras de Cézzane que Zola (com um Paul Muni envelhecido porém com mais vigor) troca a glória da Academia Francesa de Letras pela última e mais difícil defesa de sua vida. Zola mostra que além de grande escritor possuía oratória privilegiada.

Com aproximadamente uma hora e vinte minutos já com a população se revoltando contra o biografado e queimando seus livros em praça pública, o longa se atém na Corte Marcial e vira, por alguns momentos, um filme de tribunal (e longe dos melhores). Todavia, os julgadores parecem dispostos a mudar a história oficial e absolver tardiamente o homem. Já Zola, que com o passar do tempo fica menos falante, acha forças para lutar contra o Tribunal, o Exército e o Estado, que utilizam todas as armas para que a decisão seja mantida.

Os vinte minutos finais mostram a disposição de um Zola derrotado em transformar o que parecia o fim de uma guerra em o início de uma nova batalha. Utilizando novamente da escrita e exilado em Londres, seus textos provocam uma pressão por parte da opinião pública que passa a exigir uma nova investigação. A cena da libertação do injustiçado é marcante (o ator Joseph Schildkraut, não acreditando no que lhe acontece, entra e sai da sua cela diversas vezes em cena que o ajudou muito a levar a estatueta para a casa). Porém (e como sempre) a graça dos clássicos fica por conta do epílogo. Em um lindo discurso ficamos sabendo porque Émile Zola conseguiu se tornar inesquecível em um país tão rico em ídolos como a França.

Para ficar “só” com a última frase, Zola foi “um monumento da consciência humana”. Repito, é um lindo discurso. Pena que o jeito de produção pequena e um claro envelhecimento no ritmo e na linguagem faça com que Émile Zola se perca em meio a clássicos esplendorosos. Nota 7




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sábado, 21 de novembro de 2009

Ziegfeld, O Criador de Estrelas



Estreia – 8/4/1936 (nos EUA) – Quando Frank Capra começava a ganhar maior destaque em Hollywood com o lançamento de O Galante Mr. Deeds, a Academia decidiu no ano de 1937 premiar essa grandiosa produção do, à época, recém-falecido produtor da Broadway, Florenz Ziegfeld Jr., interpretado por William Powell de maneira correta (ele foi indicado no ano anterior por A Ceia dos Acusados e no seguinte por Irene, A Teimosa. Outra indicação viria em 1948 por Nossa Vida com Papai) e dirigido pelo já badalado Robert Z. Leonard (indicado os Oscar sete anos antes por A Divorciada, indicado novamente aqui e lembrando também na edição de 1936 do Festival de Veneza que na época possuía o famigerado nome de troféu Mussolini).

Ziegfled, o Criador de Estrelas venceria os prêmios da Academia de Melhor Filme, Atriz (Luise Rainer) e Direção de Dança, com indicações para Diretor, Roteiro Original (William Anthony McGuire), Edição e Direção de Arte. Os cinco minutos de abertura antes dos créditos entregam que se trata de uma fita longa, porém retratando uma biografia completa. O prólogo menos prestigioso quando, no início de carreira, Ziegfeld deixou para trás a família (o pai era professor de música erudita) e optou pelo mundo do entretenimento diverte fácil. Já em 1893, na cena da Feira de Chicago, fica claro que Ziegfeld, é aventureiro, gosta de apostar, é sonhador (tudo no bom sentido) e possui uma facilidade de comunicação absurda. O primeiro grande sucesso dele, Sandow, “o homem mais forte do mundo” é apontado hoje como o criador do Bodybuilding e é um marcante exemplo.

Observa-se logo no início que estamos diante de um exemplar muito comum no cinema de Hollywood, pois se trata de uma biografia leve, informativa, que mistura bom humor com emoção, bem no estilo Walt Disney de “uma lágrima para cada sorriso”. Já de cara somos apresentados a Jack Billings, amigo e concorrente de Florenz. Frank Morgan, indicado ao Oscar duas vezes por As Aventuras de Cellini (1934) e como coadjuvante por Boêmios Errantes (1942), interpreta o outro produtor muito bem e rouba a cena em alguns momentos com sua marcante presença. Claro que o roteiro é chapa-branca (dizem que fidelidade não era uma característica de Ziegfeld), mas o longa do homem que fica rico em um dia e está falido no outro é nada menos que adorável.

Os direitos da história foram comprados pela Universal frente à viúva de Florenz, Billie Burke (que interpretaria ela mesma). Porém, como o estúdio não conseguia mais pagar a produção e queria filmar aquela que seria a primeira versão de O Barco das Ilusões, houve uma venda de roteiro para a MGM, já na época de pré-produção. Billy Burke, Judy Garland e Eddie Cantor foram afastados do elenco e a MGM sairia ganhando duas vezes, já que quinze anos depois compraria os direitos e produziria uma refilmagem de O Barco das Ilusões, em versão definitiva e ainda seria a responsável pelo grande sucesso de O Criador de Estrelas.

Ziegfeld também dá a oportunidade de apresentar a parte do público grandes estrelas e números da Broadway. O grande destaque é a presença de Fanny Brice interpretando ela mesma. Brice era conhecida por ter uma bela voz, mas ser muito feia. Fanny supria a ausência de beleza sendo incrivelmente engraçada e fez época nos palcos de Nova Iorque sendo objeto de outra biografia, décadas depois, estrelada por Barbra Streissand.

O produtor possuía persona muito interessante. Detentor de uma abordagem típica, ele acabava por ganhar todos os talentos e mulheres de Billings. Tinha a capacidade de se adaptar e movimentar dinheiro para conseguir seus objetivos, sempre em prol da arte. O primeiro grande amor da vida de Ziegfeld, Anna Held (Luise Rainer que nunca havia ouvido falar sobre a figura que interpretaria) entra na vida do protagonista em Londres, quando o biografado, sem dinheiro, pede ajuda ao concorrente em viagem para conhecer a francesa que começava a fazer sucessos nos teatros londrinos. Rainer realmente se destaca e seu prêmio foi merecido. No ano seguinte ela repetiria a façanha pelo longa Terra dos Deuses, sendo a primeira atriz a vencer dois Oscars em sequência (feito igualado apenas por Katherine Hepburn).

Trata-se de um filme musical, mas todas as inserções típicas do gênero ficam por conta da reconstituição de shows da Broadway. É de Rainer o primeiro número, Won’t You Come And Play With Me?, seguido de uma das melhores cenas do longa: quando Ziegfeld faz Anna se convencer a ser contratada (e toda hora ela mandava ele sair do camarim, olhava para as flores que ele enviou com o dinheiro de Billings, e mandava voltar).

A atriz continua brilhando no número de It’s Delightful do Be Married, que mostra os problemas de Held com a dicção e como isso atrapalhou o início de sua carreira junto ao exigente público americano. Nesse momento já fica claro que Ziegfeld, O Criador de Estrelas é uma fita necessária aos fãs e admiradores da Broadway (eu nem posso me considerar um porque infelizmente nunca fui lá).

Com pouco mais de uma hora de filme somos apresentados à idéia que mudaria a história do teatro dos Estados Unidos: as Follies de Ziegfeld. Para quem não conhece, as Follies eram uma espécie de teatro de revista (que foram bem populares aqui no Brasil também). A idéia do produtor de apresentar um show mais dinâmico, com esquetes de humor permeando as músicas, abriu espaço para o surgimento de grandes artistas americanos, como Eddie Cantor (que se apresentava com o rosto pintado, que nem Al Johnson e é homenageado no filme com o ator Buddy Doyle interpretando If You Knew Suzie, um de seus maiores sucessos) e Will Rogers (que fazia o estilo caipira e descobriu com Ziegfeld seu timing de humor).

Porém, o grande número da primeira metade é justamente aquele que marca o Entreato, A Pretty Girl is Like a Melody. A cena começa simples, com apenas um cantor, o palco vai girando, girando, mostrando uma infinidade de dançarinos, cada um com figurino diferente, canções que passam da valsa para a ópera e termina grandioso, quase como uma epopéia musical. Algo que deve ter sido um assombro no teatro no início do século e nos cinemas na década de 1930. Uma cena muito difícil e bem realizada em apenas dois takes após semanas de ensaios contando com 180 atores e a um custo de 220 mil dólares, algo absurdo para a época e muito mais do que o próprio Ziegfeld gastou para produzir aquele show todo. No final, o custo total do longa em 2 milhões de dólares, atualizados pela inflação, chegariam ao valor de 40 milhões.

Todavia, depois da Intermissão Ziegfeld, O Criador de Estrelas pode se tornar cansativo para alguns. Logo de cara temos quatro apresentações musicais em sequência. O objetivo é mostrar a versatilidade do teatro norte-americano, por isso temos um número em que o palco se mexe (alta produção), outra onde Ray Bolger (vivido por ele mesmo e uma pena que tenha sido pouco explorado) dá um show de sapateado, um terceiro com um instrumental clássico e extremamente romântico e o quarto com uma coreografia que é um assombro de tão bem feita. São quinze minutos de arte pura, mas que pode (e deverá) desagradar muita gente.

Ao final do número a estrela do espetáculo, visivelmente embriagada, tenta desmoralizar Ziegfeld que não se faz de rogado e dá um corretivo sutil na moça na frente da platéia. Mais à frente entra em cena Fanny Brice, em cena muito semelhante à do filme que retratou sua própria vida. Aqui ela interpreta três canções e é com ela que o biografado realiza sua última Follies. Com essa fase da carreira, termina também seu casamento com Anna Held. O homem, que tinha uma incrível capacidade de reinventar sua carreira, teria que criar uma nova vida dentro de casa. Está aberto o caminho para a entrada de Myrna Loy na quarta das catorze parcerias que faria na carreira com William Powell e no ano em que seria eleita Rainha do Cinema (e Clark Gable o Rei). A Academia, porém, não se lembraria de Loy até 1991 quando esta receberia um Oscar honorário dois anos antes de sua morte, aos 89 anos.

A estrela só surge com duas horas e quinze minutos de projeção, mas é responsável por retratar Billie Burke, segundo e último grande amor de Ziegfeld. O produtor, já com o coração mais mole por conta da idade, viveria com maior intensidade esse romance. Já o filme traz com o número musical do circo seu canto do cisne, retratando um show bolado por Ziegfeld e sua filha de aproximadamente cinco anos. Mais uma cena bem realizada, porém longa para alguns. É importante que se diga que o canto do cisne é do filme e não da carreira do biografado, que mesmo exagerando na extravagância da produção de suas peças e perdendo muito patrocínio, viveria ainda o auge de sua carreira, com quatro shows de sucesso na Broadway ao mesmo tempo.

Porém, quis o destino que o homem que nunca juntou dinheiro, fizesse isso no outono da vida investindo tudo em ações. Hollywood, como se exorcizasse o demônio da Crise de 1929, nos trouxe mais uma história que não termina tão bem quanto merecia por conta de fatores econômicos. Incrível como os filmes antigos possuíam finais grandiosos (e não essa coisa aberta que a maioria nos traz hoje) e a cena do Ziegfeld moribundo, ainda na tentativa de criar shows novos ao lado de Billings, impressiona. Com a linda cena de um cortejo imaginado pelo produtor, surgem os créditos desse filme que é pouco visto, pouco badalado, mas não muito distante de uma biografia perfeita (a primeira, de muitas, a vencer o Oscar de Melhor Filme). Nota 9




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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Grande Motim (1935)



Estreia – 22/11/1935 (nos EUA) – O Grande Motim já foi re-filmado em 1962 (sendo protagonizado simplesmente por Marlon Brando). Como o assunto do momento aqui no blog é a maratona dos filmes vencedores do Oscar de Melhor Filme, deixo para fazer comparações em outra época (o mesmo serve para Cimarron e outros que estão por vir, como A Grande Ilusão). Limito-me a dizer que enquanto a (nem tão) enxuta versão de 1935 venceu o prêmio principal da Academia (indicações: Melhor Ator – três vezes, Diretor, Roteiro, Edição e Trilha Sonora), a refilmagem de mais de três horas de duração saiu da festa de 1963 de mãos abanando, apesar de lembranças nas categorias Filme, Direção de Arte, Fotografia, Efeitos Especiais, Edição, Canção e Trilha Sonora.

O filme conta a história do navio Bounty, da Marinha Britânica, em sua viagem ao Taiti em busca de suprimentos baratos para alimentar os escravos nas colônias inglesas. O evento, de veracidade contestada, foi um marco na luta pelos direitos dos marinheiros, que não se apresentavam voluntariamente, mas eram recrutados em nome do Rei.

Depois de um panorama histórico sucinto (incrível como os filmes antigos possuíam prólogos mais simples e eficientes que os de hoje), o espectador é apresentado a Christian (Clark Gable, sem seu clássico bigodinho já que a Marinha Britânica à época em que se passava a trama não o permitiria). Ele era o responsável por invadir bares e “recolher” homens que passariam os dois anos seguintes na missão do Bounty acima relatada. Viveriam em meio a uma rígida disciplina e hierarquia, somados a péssimas condições de trabalho e desrespeito da maioria dos oficiais.

Porém, o sentimento de que O Grande Motim realmente começou ocorre na entrada de Capitão Bligh (soberbamente interpretado por Charles Laughton) em cena. O confronto entre um Christian mais humanista, quase que ensinando aqueles homens a serem verdadeiros bucaneiros e um Bligh que de posse de um chicote se auto-intitulava “Capitão, Juiz e Júri” é o destaque da primeira metade. A origem do motim é justamente a forma selvagem com que Bligh tratava seus subordinados, contrariando até os outros oficiais, verdadeiros formadores de opinião em meio àquela micro-sociedade que era o Bounty.

Quase que a dupla de astros vira um trio, já que Cary Grant estava certo para fazer o papel de Byam. Porém, a Paramount não liberou o ator. Quem ganhou com isso foi Franchot Tone, que além do papel foi indicado ao Oscar de Melhor Ator ao lado dos dois líderes do elenco. Aliás, com essas três lembranças na mesma categoria (feito nunca mais igualado) a Academia decidiu, no ano seguinte, criar troféu para os coadjuvantes, dividindo em quatro os prêmios relacionados a atuações (os três perderam o Oscar para Victor McLaglen de O Delator, que nunca assisti, mas não creio que tenha feito trabalho melhor que o de Laughton). Lembrando que Gable à época era o atual vencedor do prêmio da Academia por Aconteceu Naquela Noite e astro absoluto tendo filmado quarenta filmes nos dez anos anteriores. Já Charles Laughton havia vencido dois anos antes por Os Amores de Henrique VIII, mas ainda faria talvez seu filme mais marcante: O Corcunda de Notre Dame.

Notas de produção indicam que Tone e Gable, antes de se conhecerem, não iram muito com a cara um do outro já que anos antes brigaram pelo amor de Joan Crawford. Como os dois eram mulherengos e beberrões, as filmagens de O Grande Motim foram o início de uma grande amizade. História mais escabrosa fica por conta da escalação da dupla Gable-Laughton. Depois que Wallace Berry se negou a interpretar Bligh justamente por não gostar do astro com bigodinho ridículo, o excelente produtor Irving Thalberg (sempre citado aqui no blog) teve o insight de escalar Clark Gable, notório homofóbico ao lado de Charles Laghton, notório homossexual, para viverem antagonistas. O intérprete de Capitão Bligh tinha medo de mar e passou o filme todo enjoado (talvez isso explique um pouco sua cara de poucos amigos e vontade de vomitar durante toda a projeção). Brincadeiras à parte, Laughton se sentiu tão à vontade no papel de Bligh que o diretor Frank Lloyd quis por muitos anos fazer uma continuação (o livro é o primeiro de uma trilogia) de nome “Capitão Bligh” mas nunca conseguiu. Hoje com Hollywood seca por continuações, a história seria diferente.

Com a chegada ao Taiti (com aproximadamente cinqüenta minutos), O Grande Motim ganha movimento, com belas imagens daquele lugar de sonhos, com peixes e frutas em abundância – sem a influência do dinheiro e cercado de belas mulheres. A produção do longa, de pouco mais de dois milhões de dólares, foi a mais cara da história da MGM até então. O espetáculo visual transformou o filme no primeiro campeão de indicações do Oscar, mas rendeu um acidente fatal e outros tantos de menor gravidade nos sets de filmagens gigantes. A fita é toda bem filmada (qualidade técnica maior até que Sem Novidades no Front, porém este impressiona mais hoje) e mesmo parecendo datada envelheceu de maneira satisfatória.

Na volta ao navio, os marinheiros têm que conviver com a volta das chicotadas. Bligh não suporta ver a alegria daqueles homens (muitos viveram romances na ilha) e, para manter vivas as centenas de mudas de fruta-pão trazidas do Taiti, corta o suprimento de água da tripulação (além de exigir que todos entreguem para a Coroa Britânica as lembranças trazidas). A construção de personagem feita por Laughton é incrível e este se destaca ainda mais nos quarenta minutos finais, onde é mostrado o motim de fato e quando o Capitão é colocado em um bote a 3.500 milhas de terra firme. Sua revolta com a insubordinação e seu desejo de vingança preenchem a tela e me faz perguntar o porquê de filmes de aventura atualmente não produzirem grandes interpretações como essa.

O roteiro a seis mãos (adaptação de um livro) é excelente, mas a direção de Frank Lloyd é que merece ser destacada. O mestre já havia vencido dois Oscars (inclusive um por Cavalgada, que já foi objeto da maratona do blog) e receberia sua última indicação na carreira. A demonstração da qualidade de seu trabalho pode ser observada na ação frenética dos últimos vinte minutos. Já o que de melhor faz o roteiro é deixar como mensagem direta o desejo incontrolável de todo e qualquer homem de ser escravo. Nota 9




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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cavalgada



Estreia – 15/04/1933 (nos EUA) – Os créditos iniciais entregam que o roteiro de Cavalgada conta a história de infelicidade e infortúnio de uma família sob os olhos de mães e filhas na Inglaterra do início do século XX (passagem de tempo que lembra Cimarron, transferindo a ação do Velho Oeste Americano para a terra da Rainha).

Na virada de 1899 para o ano 1900 os ingleses se preparavam para enviar um novo lote de soldados para a longínqua África do Sul em uma fase muito particular dessa nação. Aquele povo estava prestes a assistir os ex-colonizados do Novo Continente superar a ex-metrópole e se tornar a maior potência mundial. Todavia, naquele final de 1899, a maioria estava preocupada com os filhos, pais e maridos que caminhavam para mais uma guerra inútil.

Cavalgada é mais um dos vencedores do Oscar de Melhor Filme a pregar uma mensagem antibélica, criticando a falsa promessa do conflito breve para obter adesão popular, lição que foi muito bem passada em Sem Novidades no Front (que se utiliza o povo alemão). O sofrimento daqueles soldados que viajavam mais de quinze dias pelo mar só para chegarem ao local do conflito não é muito explorada, já que o roteiro cobre mais de trinta anos de História. Isso criou um corte interessante em Cavalgada: da bela e imponente cena de despedida dos soldados para o desespero das mulheres procurando nome de familiares na lista dos mortos, constantemente atualizadas.

O longa é mais uma adaptação de uma peça (que custou US$ 100 mil para o estúdio), com o diferencial de que boa parte da trilha utilizada foi trazida do teatro. E justamente um dos destaques de Cavalgada são as canções e melodias – muitas que qualquer espectador reconhece nos primeiros acordes. Pena que o filme foi pouco visto (a “Meca” dos portais de cinema, IMDB, não conseguiu juntar mil votos de internautas e You Tube não tem nenhum vídeo do filme), já que se trata de um dos primeiros exemplares do “cinemão” de Hollywood: takes grandiosos com trilha marcante, momentos de música e dança muito bem realizados e por aí vai.

Talvez o principal responsável por esse excelente resultado seja o diretor Frank Lloyd, que já estava ambientado com aquilo que o público americano queria ver no cinema, sendo Cavalgada seu 115º trabalho como diretor. Ele venceria seu segundo Oscar na carreira por este filme (o primeiro foi conquistado em 1930 por A Divina Dama) e seria lembrado mais uma vez dois anos depois por O Grande Motim (que venceria na categoria principal). Cavalgada ainda venceria Oscar de Direção de Arte e renderia uma indicação para a atriz Dyana Wynyard (Jane Marryot) – que é o centro dos acontecimentos e outro destaque da história. Quem também merece ser citado é o ator Clive Brook, já veterano à época, com 80 trabalhos no cinema.

A guerra com a África do Sul, como sempre, se arrasta. O retorno dos soldados puxa o drama para a roda e algumas cenas menores fazem o ritmo de Cavalgada cair um pouco. O corte para 1908 mostra o veterano de guerra alcoólatra naquele que seria o primeiro de muitas vítimas indiretas dos tempos de violência pela qual passava a Europa. Já em 1912 o casal em lua-de-mel inicia uma interessante discussão questionando a eternidade do amor e do casamento (moderno para a época, não?). Porém, uma revelação quando os dois saem de cena deve ter arrancado suspiros dos espectadores no cimema.

Claro que o miolo do filme serve apenas para ligar a batalha inicial entre a Inglaterra e África do Sul com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Aos poucos Cavalgada vai crescendo de novo, mostrando o desenvolvimento bélico revolucionário (da espada para o revólver) e passando a limpo anos de importantes transformações que levariam, no final da década de 1930, a outra leva de mudanças permeada por sangrentas batalhas.

Há, porém, uma cena que se destaca das demais. A mãe recebendo a notícia da morte do filho e do fim da guerra, caminhando no meio da rua em um misto de emoções é inesquecível. A chegada da crise econômica abre espaço para uma linda canção, interpretada pela atriz Ursula Jeans no papel de Fanny Bridges. A música, em tom pessimista e forte, questiona o porquê do século XX se mostrar tão sombrio e triste nas duas primeiras décadas.

Outro ponto positivo é a utilização da maquiagem de envelhecimento dos atores, técnica que Hollywood sempre gostou de utilizar. Porém, a cereja do bolo (e sempre tem a cereja do bolo nos clássicos) acontece na virada de 1932 para 1933, quando a protagonista Jane Marryot faz um brinde ao futuro e ao passado de glórias e tristezas da Inglaterra. A fala final, voltada para o público, olhando fixamente a câmera, é linda e levanta a auto-estima de qualquer um que duvide de seu país. É quase uma demonstração de gratidão dos Estados Unidos ao povo que ajudou a molda-lo.

O roteiro de Cavalgada poderia ter um tom mais otimista. Todavia, as imagens do progresso (carros, aviões) podem ser interpretadas como uma boa forma de utilizar a constante evolução do mundo de forma positiva. A frase final, quase uma atualização da Igualdade, Liberdade e Fraternidade da Revolução Francesa, nunca foi seguida: dignidade, grandeza e paz. Mais uma vez ninguém aprenderia a lição. Pelo menos ganhamos outro grande filme. Nota 8

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sábado, 14 de novembro de 2009

Grand Hotel



Estreia - 11/09/1932 (nos EUA) Os créditos de Grand Hotel já revelam um elenco estelar (há relatos de tensões e quase conflitos entre tantos egos gigantes), naquele que talvez seja a primeira produção nesse sentido, juntando atores consagrados. Porém, o primeiro destaque dado pelo roteiro é ao porteiro que aguarda que sua mulher dê a luz. Depois, em rápida sequência dentro de cabines telefônicas, somos apresentados a alguns dos principais personagens da trama. Em seguida, a célebre frase "Grand Hotel... As pessoas vêm e vão e nunca acontece nada", proferida pelo Doutor interpretado por Lewis Stone.

O roteiro é uma adaptação de peça da Broadway de William A.Drake, que gerou quase 500 performances. A adaptação para os teatros da Alemanha, realizada por Vicki Baum também fez muito sucesso. Quase um esboço dos tão comentados e controversos filmes-mosaico, a gama de personagens apresentadas não se compara a longas como Magnólia e Short Cuts – Cenas da Vida. Porém, com roteiro centrado nos diálogos e interpretações cuidadosas, o filme se sustenta muito bem.

A fórmula seria muito utilizada (principalmente em comédias, sempre em um hotel) e aperfeiçoada, mas isso não diminui Grand Hotel, que foi produzido (apesar de ausente o devido crédito) pelo gênio Irving Thalberg, da primeira versão de Ben-Hur, A Divorciada, Tarzan - O Homem Macaco e que levaria os Irmãos Marx à sua melhor época com Uma Noite na Ópera e Um Dia nas Corridas. Além de Grand Hotel ele já havia produzido Melodia na Broadway e produziria outro vencedor do Oscar de melhor filme, O Grande Motim. Morreria com apenas 37 anos.

O destaque fica por conta de Otto Kringelein, magistralmente interpretado por Lionel Barrymore (Buster Keaton foi cogitado para o papel). O homem que descobre ter poucos dias de vida e decide torrar seu dinheiro no luxuoso hotel é sincero desde o início e responsável pelas melhores cenas. Claro que quando se tem Greta Garbo no elenco é difícil não destacá-la. Porém, sua Grusinskaya brilha sozinha, quase sempre em monólogos, interagindo pouco com os outros personagens. Com vinte minutos acontece sua primeira aparição, onde Garbo, em close, revela que "nunca esteve tão cansada na vida". A atriz, então com 26 anos, havia se destacado nos anos anteriores, sendo inclusive indicado ao Oscar em 1930 por dois filmes diferentes na mesma categoria. Ela só se cansaria mesmo uma década depois, quando abandonaria a carreira no auge. Outra frase dela iria para a lista das 100 maiores do cinema americano: "eu quero ficar sozinha", que achei menos “impactante”.

Com toques de ironia e boas tiradas (exemplo? "Não entendo nada de mulheres, estou casado a trinta anos”), a parte dramática de Grand Hotel fica em grande parte nas mãos de Greta Garbo. Um exemplo é quando a dançarina (uma maluca beleza, daquelas que todos conhecem), se nega a fazer seu número porque na noite anterior ela não havia sido aplaudida o suficiente. Nesses momentos o ar teatral pode cansar alguns espectadores. A coisa ganha corpo quando o Barão, vivido por John Barrymore (o único dos cinco a nunca ter sido indicado ao Oscar), tenta furtar as joias da dançarina. A prova do magnetismo que Greta Garbo (a única entre os indicados que nunca venceu o prêmio da Academia) exerce até hoje acontece nessa cena, em que a doida descobre o homem que queria roubar seus bens e vira amante e confidente.

O reflexo da crise de 1929 é mostrado nas negociações de uma fusão entre empresas do ramo têxtil. Wallace Berry é o diretor Preysing e Joan Crawford a bela estenografa. A atriz não dividiu qualquer cena com Greta Garbo, algo proposital para que uma grande estrela não ofuscasse outra. Talvez a parte menos interessante seja essa passagem da história. Apenas quando todo mundo se encontra em um baile no final do dia, é que a inserção da história de Preysing faz sentido. Ele é o chefe de Otto, que parecia estar saudável enquanto dançava com a estenografa - após árdua competição entre pretendentes. Só que ao ver o patrão e entender que sua exploração que o deixou doente abre-se a porta para umas das melhores cenas do filme.

Mesmo que a pessoa não goste de cinema antigo (um preconceito bobo, mas que infelizmente existe) ninguém pode alegar que Grand Hotel não seja simples de assistir, possuindo fluidez. Há excelentes cenas dramáticas, uma discussão sobre a moral de um ladrão (já que o Barão demonstra presença de escrúpulos quando desiste de mais um roubo) e a formação de uma interessante teia. Pode ser que o longa não se destaque em meio a tantos grandes filmes do mesmo gênero, bem como em meio a outros vencedores do Oscar de Melhor Filme (e a produção só foi indicada e venceu nessa categoria), mas tem seu valor. Tanto que no epílogo do filme, quando o porteiro reaparece falando do nascimento de seu filho, é que nos damos conta de que só se passaram dois dias de história.

Cinéfilos do mundo todo lamentam o fato do trailer original do longa ter se perdido. Porém, o grande destaque de uma sessão de Grand Hotel é a conclusão do personagem em "estado terminal", vivido por Lionel Barrymore (que não conto para não estragar). Coisas que ficam mais na memória. Coisas que fazem filmes como Grand Hotel, com o passar do tempo, virarem verdadeiros clássicos. Nota 7



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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Cimarron (1931)



Estreia - 9/2/1931 (nos EUA) - Realmente o cinema americano estava engatinhando em 1931, mas já dava para perceber que eles nasceram com o dom de criar grandes espetáculos. A primeira versão de Cimarron é um reflexo da sociedade da época (pós-crack da Bolsa de Valores) e você percebe que os estereótipos de negros escravos e índios burros ou ladrões ainda estão lá, ainda sem uma preocupação com o politicamente correto. Dizem que a refilmagem de 1960 estrelada por Glenn Ford é superior. Ambos são adaptações de livro de Edna Ferber, autora de outras obras que se tornariam clássicos do cinema americano como O Barco do Amor, Assim Caminha da Humanidade e Jantar às Oito.

Em 1930 o estúdio desembolsou US$ 125 mil para comprar os diretos de Cimarron, um recorde absoluto na época. O longa foi o primeiro faroeste a vencer o Oscar na categoria Melhor Filme e divide essa honra com Os Imperdoáveis, já que a Academia passou ao largo do auge do gênero nos anos 1940 e 1950. Além dessa, o filme venceu nas categorias Roteiro Adaptado e Direção de Arte, sendo indicado em mais quatro categorias (Diretor – Wesley Ruggles, Ator – Richard Dix, Atriz – Irene Dunne e Fotografia). O problema é que eu não consigo gostar muito de filmes de faroeste, sendo raras as produções que me agradem por completo (exemplos óbvios: Butch Cassidy e Sundance Kid, Três Homens em Conflito, Rastros de Ódio e o não-tão-óbvio Onde Começa o Inferno). A primeira versão de Cimarron, porém, não me enche os olhos.

Não sei se é porque retrata uma sociedade altamente improdutiva, que só queria beber, andar de cavalo e sair dando tiro por aí. Eles não tinham teatro, biblioteca, nada. Não sei se a inserção de dramas no meio da ação deixa alguns filmes arrastados demais. Tudo bem que Cimarron mostra o poder de organização que aquelas pessoas tiveram. Sem ajuda do Governo nem nada, eles conseguiram montar suas cidades, definir suas leis e evoluírem (mas também eram bárbaros ao extremo, em alguns momentos). Só que eu acho essa coisa de Velho Oeste faroeste muito chata.

Algumas imperfeições são claras no filme, já que eles ainda estavam se acostumando com a chegada do som no cinema. Nas cenas em que tem trilha sonora esta é interrompida (não tem seqüência) entre um take e outro. Os atores fazem caras e bocas terríveis (não sei como o protagonista Richard Dix conseguiu ser indicado ao Oscar de Melhor Ator, em alguns momentos dramáticos parece que estou diante de uma comédia). O diretor Wesley Ruggles (que não sei porque não foi creditado) possuía larga experiência no cinema mudo com mais de oitenta trabalhos. Dez anos depois ele realizaria outro famoso faroeste, Arizona, com William Holden e Jean Arthur, já mais ambientado ao cinema falado.

O elenco é liderado por uma Irene Dunne no início de sua prestigiosa carreira – Cimarron é seu segundo longa e a primeira das cinco indicações que recebeu (todas como atriz principal, incluindo uma pelo clássico Cupido é Moleque Teimoso). Já Richard Dix naquele momento começava sua fase de estrela maior do estúdio RKO. Porém, com exatos cem trabalhos como ator em breves trinta anos de carreira, pouco se lembra hoje do astro.

Quando um período da narração sofre um salto sempre vem acompanhado de um “texto explicativo”, como se procedia com os filmes mudos. Os roteiristas deviam ser os mesmos, portanto, desacostumados com um texto só de falas. Todavia, as cenas de ação do início do filme são realmente impressionantes para a época. Demorou uma semana para ser filmada e contou com 5.000 figurantes e 28 câmeras, mostrando a mania de grandeza que Hollywood começava a desenvolver. Tem um “quê” de valor histórico, até meio documental, muito interessante, pois a história vai dos últimos vinte anos do século XIX até 1930 (um ano antes do lançamento do filme). Porém, algumas cenas são longas demais (externas eram luxo naquela época), o que faz o filme parecer uma peça de teatro em alguns momentos.

As mulheres têm papéis importantes. A prostituição é tratada diretamente, mas não é citada, por incrível que pareça. Tem que ter uma boa percepção, principalmente a geração de hoje que está acostumada com tudo mastigado. Porém, a presença feminina na política já é motivada por essa fita, de quase oitenta anos atrás – algo interessante, pois só em 2008 os EUA tiveram uma chance real de ver uma mulher como Presidente da República.

Mesmo com tanta pompa e vencendo o prêmio máximo do cinema, Cimarron gerou um prejuízo ao estúdio R.K.O. de US$ 5,5 milhões (o que pela atualização inflacionária equivaleria hoje a US$ 58 milhões). Até hoje é a única produção vencedora do Oscar de Melhor Filme a ter trazido prejuízo a seus realizadores, mesmo com excelentes críticas na época. Um reflexo da Grande Depressão, que detonou com o bolso do público norte-americano. Também foi o primeiro a ter alcançado o feito de obter indicações nas cinco categorias principais (Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro). Aliás, o único da R.K.O. a ter o prêmio máximo, já que o estúdio apenas distribuiu Os Melhores Anos de Nossas Vidas em 1946 (produção de Samuel Goldwyn).

Se julgasse o longa na sua época creio que este ganharia de 7 para cima. Mas, como eu tenho que tratar todos os filmes igualmente, minha nota é 5. Não consigo achar esse faroeste tão interessante. A nota pode parecer baixa para um vencedor do Oscar, mas é justa. Nota 5



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Sem Novidades No Front


Estreia - 15/09/1930 - Sem Novidades No Front se passa nas trincheiras alemãs em meio à interminável 1ª Guerra Mundial. O objetivo do roteiro adaptado do livro de Erich Maria Remarque (que foi cogitado para o papel do protagonista ao lado de Douglas Fairbanks Jr.) já se mostra claro na introdução ao filme: mostrar o grau de destruição e estupidez de uma guerra desse tamanho, extremamente cansativa e capaz de multiplicar o número de mortos em pouco tempo.

Por poucos minutos um grupo de moradores de uma cidade alemã parece feliz com a vida que leva, sendo o carteiro do local uma das pessoas mais populares, sempre sorrindo e tratando as pessoas de maneira cordial e amiga. Porém, a promessa (que sempre se repete nas guerras) de um conflito breve, que ajudaria muito o país, fez com que a Primeira Guerra Mundial conquistasse apoio popular em seu momento inicial (outra constante em conflitos deste porte). Sendo assim, milhares de jovens se alistam para a admiração das mulheres e desespero dos pais.

O diretor Lewis Milestone, em poucos minutos, dá essa visão geral, ampla, rápida e muito eficiente da história que pretende contar. A virada acontece quando o grupo de jovens alemães no qual Sem Novidades No Front focará começa seus treinamentos para irem para as trincheiras. O carteiro assume seu cargo de Oficial de alta patente que fica revoltado ao não conseguir angariar o respeito digno desta patente que carrega, deixando para trás os anos em que tratou aqueles jovens como iguais.

Milestone já contava com quinze produções em seu currículo e havia se destacado dois anos antes do lançamento de Sem Novidades no Front com os longas Two Arabian Knights (pelo qual venceria o prêmio de Melhor Diretor no primeiro ano do Oscar) e The Garden of Eden, ambos com a mesma temática. Sua investida em filmes de guerra foi muito bem sucedida já que Sem Novidades no Front foi o grande campeão do Oscar em 1931, levando os prêmios de Melhor Filme e justamente Melhor Diretor (com indicações para Roteiro e Fotografia). No ano seguinte o diretor seria lembrado por Última Hora. Destacar-se-ia mais ao final de sua carreira as produções Caminhada Sob o Sol (1945), a primeira versão de Onze Homens e Um Segredo (1960) e a segunda de O Grande Motim (1962).

O grande mérito de Lewis Milestone foi trazer um espetáculo visual pouco visto no cinema, mesmo oitenta anos depois do lançamento de Sem Novidades no Front, somada a uma mensagem direta e bem mandada, tanto que este é considerado um dos maiores filmes pacifistas de todos os tempos. Pegue como exemplo o treinamento pesado pelo qual passam os novos soldados. Quantas releituras foram feitas daquelas cenas no contexto de qualquer outra guerra posterior? Sendo gastos mais de um milhão de dólares (superprodução na época), as filmagens começaram poucos meses após o crack da bolsa de Nova York, atitude coragem da Universal, recompensada com o título de filme do ano.

Os momentos nas trincheiras e os tiroteios, com direção e produção muito bem realizadas, impressionam o espectador de hoje. O elenco parece familiarizado com o som, que ainda engatinhava no cinema à época (uma versão muda do longa seria exibida em circuito reservado no ano de 2003). O ambiente claustrofóbico que afeta a mente daqueles Oficiais, o pesadelo e inferno que viram suas vidas inserem o drama na batalha, mostrando a linguagem moderna na qual Sem Novidades no Front dialoga com quem o assiste. A direção é ousada, com a câmera no meio da ação (como Hollywood conseguia realizar coisas assim no final da década de 1920?) e as batalhas coreografadas (em cortes longos) utilizando mais de dois mil figurantes engana quem arrisca dizer que o longa é trinta ou até quarenta anos mais novo. A ausência de trilha sonora foi proposital para que o público prestasse ainda mais atenção no que estava querendo ser passado ali.

Mesmo no momento em que o roteiro separa um pouco do tempo para tratar dos reflexos da Guerra, como as mortes lentas e dolorosas e as amputações e mutilações sofridas por milhares de jovens, o ritmo do filme cai. Para quem gosta de cinema, bolei uma tese de que Sem Novidades no Front e Os Melhores Anos de Nossas Vidas (outro vencedor do Oscar de Melhor Filme, que será trazido ao blog daqui a alguns dias) se completam. O mais antigo trata de toda a fase pré e durante a Guerra se passando na IGG e o segundo mostra a volta para a casa das verdadeiras vítimas da IIGG.

Mas a pérola do roteiro é o contraponto entra as duas cenas ocorridas numa sala de aula. A primeira mostra o professor motivando aqueles jovens a irem lutar pelo seu país. A segunda mostra o mesmo professor convidando para algumas palavras o único que retorna para a casa (e que depois retornaria ao front), recebendo em troca um discurso de revolta, criticando duramente a maneira selvagem com a qual o homem deseja solucionar os problemas entre nações.

Destaco também a reflexão de um dos soldados em frente ao amigo morto, mostrando mais uma vez o peso e a grandeza do roteiro de Sem Novidades no Front. Passando por outros ambientes (como os raros momentos de diversão das tropas com bebidas e mulheres; e os hospitais improvisados, que são verdadeiras prévias do inferno) só faltava ao longa um epílogo seco e poético. E ele está lá. Sem dúvida é um dos filmes de guerra que mais me impressionou positivamente, se revelando um dos grandes destaques do gênero.

Pena que a Humanidade não entendeu a mensagem tão pertinente há oitenta anos, mas infelizmente tão atual. O maior exemplo é que quando Sem Novidades no Front estreou na própria Alemanha, os Nazistas interrompiam a projeção para inserir propagandas de sua Doutrina. Já o ator Lew Ayres, que pegou gosto pela mensagem anti-guerra, estrelaria outros filmes sobre o assunto. Tais filmes seriam banidos dos cinemas de Chicago no momento em que os Estados Unidos se preparavam para entrar na Segunda Guerra Mundial. Além disso, Sem Novidades no Front se encontrou banido na Itália até 1956. Nota 10



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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Limite



Para ser o 100º filme comentado pelo blog escolhi uma produção nacional que andou perdida por décadas e hoje é referência obrigatória para aqueles que desejam entender melhor o cinema. Antes de falar sobre Limite, abro aspas para o crítico Jaime Biaggio, que trabalhou por seis anos em O Globo e fala sobre esse longa no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer (mais pra frente essa lista será publicada aqui também) e que me motivou a assisti-lo:

"Único filme dirigido por Mário Peixoto (apesar de não lhe terem faltado ideias e projetos inacabados), Limite é uma verdadeira lenda do cinema brasileiro. E, como ocorre com as lendas, mais gente ouviu falar dele e/ou bateu os olhos em alguma foto de seus personagens num bote mirando o mar do que efetivamente chegou a vê-lo. Rodado em 1930 e exibido pela primeira vez no ano seguinte, no Cinema Capitólio, no Rio de Janeiro, foi aclamado pela crítica como obra de vanguarda, mas não chegou ao circuito comercial, sendo incompreendido pelo público (a narrativa era elíptica, sua lógica mais sensorial do que cartesiana). Houve exibições em Londres e Paris, mas, no Brasil, o filme só seria visto esporadicamente nos anos 40 e 50. Nas duas décadas seguintes desapareceu totalmente de circulação, pois os negativos originais necessitaram de um longo trabalho de restauração (nota do blog: sobre essa restauração leia mais após os meus comentários).

No entanto, quando o filme chegou novamente ao público, em VHS, nos anos 80, a lenda estava criada. Orson Welles o teria visto em sua passagem pelo Brasil, em 1942. Sergei Eisenstein o teria assistido em Londres, no início dos anos 30, e escrito um texto entusiasmado sobre o cinema inovador da América do Sul. Essa última história, a principal peça do folclore associada ao filme, se revelaria falsa. Hoje se sabe que aquele texto, divulgado na época por Peixoto como se tivesse sido publicado na prestigiosa revista Tatler, era na verdade da autoria dele mesmo. Não houve, contudo, qualquer conotação de 'desmascaramento' atribuída à descoberta da mentira, pois novas gerações de críticos e estudiosos já haviam adotado o filme, a despeito do desconhecimento do cineasta russo. Mas a quase total ausência de diálogos, com a justaposição poética de imagens aparentemente desconexas servindo como único guia da trama, apontava para um parentesco real com o cinema de Eisenstein. A moral da história, na visão dos fãs, parece ser que ele pode não ter escrito o texto, mas deveria tê-lo feito. À margem de todas as interpretações resta o filme, incompleto (há trechos que se perderam) e ainda pouco visto. Dois homens, uma mulher, um barco, o oceano, uma trilha sonora de música clássica, algumas sugestões de histórias passadas. Ao redor deles, tudo o que o espectador quiser enxergar. (1001 Filmes para Ver Antes de Morrer / editor Steven Ray Schneider - tradução de Carlos Irineu da Costa, Fabiano Morais e Lívia Almeida - Rio de Janeiro: Sextante, 2008, pg. 85)".


Capa de revista francesa que inspirou Mario Peixoto (essa imagem é reproduzida no início e no fim de Limite por uma das personagens).

Estreia - 17/5/1931 - Dito isso, vamos às minhas observações sobre Limite, conhecido por alguns como Um Cão Andaluz (1929) da América Latina. Primeiro, a discussão acerca do nome. A intenção de Mario Peixoto (filho de pais ricos e que estudou artes na Europa) era aproximar personagens e espectadores aos seus limites, creio eu. A trilha, toda com música clássica (e ressincronizada à época da restauração) é linda e sem ela o longa seria ainda mais difícil do que ela já é. As cenas soltas, como urubus voando, a mulher algemada, close dos olhos, são explicadas ao longo do tempo.

Por não utilizar palavras, o filme não foge da excessiva contemplação e os três atores demonstram a solidão e a tristeza nas suas interpretações. Depois de dez minutos de uma poesia cinematográfica, Peixoto começa a contar a primeira história, mostrando uma fugitiva caminhando pela estrada e, no flashback do flashback, chegando à cumplicidade do carcereiro. Quando a trama volta para o barco algumas imagens que mal conseguiram ser restauradas se mostram numa qualidade ruim, como se o negativo tivesse podre - até chegarmos ao tal trecho perdido, com pouco mais de vinte e cinco minutos.

A história do homem é um pouco mais dinâmica mas há momentos em que nem todas as intenções são perdidas. Sei que é uma obra aberta e interpretar Limite é uma coisa muito pessoal, mas mesmo a beleza dele sendo a necessidade de dar um entendimento a todas as cenas, há partes em que o espectador cansa um pouco desse surrealismo. Meus momentos preferidos são aqueles em que o diretor brinca com as imagens, fazendo um jogo que não seria possível no cinema falado.

Um exemplo da poesia do filme é a parte em que Peixoto mostra que o homem perdeu sua mulher, mostrando várias vezes duas linhas de pegadas na praia para depois mostrar apenas uma - aliás, são longos minutos em que o personagem apenas caminha e cuida da esposa. Apesar de ser muito contemplativo, gosto de Limite por ser vanguardista, ter muita qualidade técnica e por se concentrar nas pessoas, com histórias interessantes. Visto de longe e de maneira rasa o longa me lembrou o conceito da famosa "nau dos insensatos" (e não apenas o filme de 1965 - sobre esse eu falo outro dia), mas a ideia de passageiros perturbados (no caso de Limite até transtornados) que vagam sem direção, não se importando muito pro lugar aonde chegarão.

Mario Peixoto faleceu em 1992 aos 84 anos. Na década de 1980 ele recebeu ajuda de Walter Salles, que além de diretor é apaixonado por cinema. Mesmo realizando Limite com 21 anos, Peixoto nunca terminou outro longa. Imagina como ele poderia ter feito muito mais para o cinema brasileiro com sua mente experimental. Nota 9



A primeira restauração de Limite foi iniciada em 1959 e finalizada em 1978. Clicando aqui você lê uma reportagem do Jornal da PUC com uma entrevista com um dos restauradores. Foi exibido em Cannes em 2007 e a cantora Adriana Calcanhotto, outra fã do longa, compôs a canção O Mocho e a Gatinha (para crianças) fazendo referência a algumas cenas. Para quem se interessar o filme tem passado no Canal Brasil com alguma frequência e não faltam blogs sobre cinema que falam muito mais sobre essa produção. Esse aqui é apenas um grão de areia na praia.


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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Drácula (1931)



Estreia - 14/2/1931 (nos EUA) - Talvez a adaptação mais celebrada da obra clássica de Bram Stoker (já passam de 50 entre 1922 com o clássico expressionista Nosferatu e 2006 com uma produção para a televisão britânica) tem como fundamental característica elevar o ator Bela Lugosi, romeno à época em seu 44º filme, a ícone do cinema.

Várias notas relacionadas a Drácula de 1931 remetem a Lugosi, que faleceu em 1956 aos 83 anos, com 108 trabalhos no currículo. O ator foi enterrado com a capa utilizada nesse longa e reviveu o Conde em 1948 no filme Às Voltas com Fantasmas (estrelado por Abbot e Costello - mas sobre esse eu falo outro dia). A viúva de Bram Stoker chegou a um acordo por 60 mil dólares, mas o texto adaptado para as telas foi o de uma peça da Broadway, que estreou em 1927 e foi encenada 261 vezes por Lugosi - terminando aqui os boatos de que o astro não falava inglês e decorava seus textos foneticamente.

A vontade do romeno de levar ao cinema a história do vampiro era tanta que ele dispensou o próprio cachê para que os produtores investissem no filme. Um reflexo da crise de 1929 em Hollywood, deixando o estúdio sem verba para uma adaptação completa do livro escrito em 1897. Todavia, Lugosi não foi a primeira opção. O ator Lon Chaney, escolhido para viver Drácula, faleceu dias antes do início das filmagens e Bela foi apenas seus substituto. Paul Muni, de Scarface, também foi cogitado. Quem quase viveu Mina foi Bette Davis, descartada porque não era considerada "sexy o suficiente".

Quanto ao filme em si, o belo início com os créditos ao som de Lago dos Cisnes é a única música ouvida durante os 75 minutos de duração. Como o som era uma novidade no cinema, os produtores pensaram que o público não queria ouvir uma trilha de fundo alheia ao contexto - análise completamente equivocada, visto que isso ocorre em todos os longas, com raríssimas exceções.

Partindo para a história, apesar da dinâmica interessante, trata-se da velha lenda de Reinfield, que visita o castelo de um Conde na Transilvânia e por aí vai. Em algumas partes a trilha nitidamente faz falta, porém a produção é caprichada (quase impecável) e uma grande referência naquele que inaugurou o gênero terror em Hollywood. Lugosi parece ser o Drácula definitivo (ainda não vi a performance de Christopher Lee) e é mais fácil convencer alguém a gostar dessa versão do que o longa Nosferatu.

A chegada do vampiro a Londres numa caixa, as saídas do "mocinho" Van Helsing, tudo que você conheçe sobre a trama está presente. O final, com uma conclusão bem simples, é até hoje criticada. Drácula fez carreira nos cinemas sem qualquer tipo de prêmio, mesmo para a atuação do ator, mas a AFI volta e meia homenageia o filme (que está presente na lista dos mais emocionantes - veja a lista aqui - dos maiores vilões - veja a lista aqui - e das maiores frases - veja a lista aqui). Uma saída interessante da produção foi enxugar o roteiro em vinte minutos em comparação com a peça. Uma versãoespanhola, filmada simultaneamente nos mesmos cenários, é considerada mais fiel à Broadway, mas hoje é peça de museu. Outra versão sem som com o mesmo elenco acertadamente nunca foi lançada.

No mesmo ano chegava aos cinemas Frankenstein, que consagraria outro mestre do terror, Boris Karloff. Ele e Lugosi se encontrariam nas telas em 1945 no filme O Túmulo Vazio, dirigido por um Robert Wise (Jornada nas Estrelas, Amor Sublime Amor, A Noviça Rebelde) em início de carreira. Por tantas histórias e por se tratar de um bom filme (que aparentemente não envelheceu), Drácula é um longa que vale a pena ser assistido. Nota 8




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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cupido é Moleque Teimoso



Estreia - 21/10/1937 (nos EUA) - Quem me conheçe sabe que, mesmo gostando de todos os filmes (por pior que ele seja eu aprecio, já que não sou capaz de fazer algo parecido), tem alguns gêneros que eu assisto com mais preguiça. Não que não exista filmes sensacionais desses estilos, mas a quantidade de produções ao longo dos anos saturou um pouco. Para citar três, digo: animação, faroeste e comédia romântica. Essa última, então, continua bombardeando os cinemas de filmes água-com-açúcar, que sua namorada enche o seu saco pra ver, praticamente toda semana.
Ainda conseguem fazer boas comédias românticas hoje em dia? Claro que sim. Mas a maioria sempre deixa a sensação de que está repetindo e requentando uma história de anos atrás. Já que essa semana eu falei aqui sobre Ele Não Está tão a fim de Você (que é um exemplo perfeito de tudo o que eu disse), resolvi falar de uma comédia romântica antiga, clássica, que agrada até hoje (e que volta e meia serve de inspiração para produções atuais).
Cupido é Moleque Teimoso é estrelado por Irene Dunne (indicada cinco vezes ao Oscar, inclusive por esse) e Cary Grant (indicado duas vezes posteriormente). O filme também seria indicado a melhor edição, ator coadjuvante (Ralph Bellamy), roteiro e filme; vencendo ainda melhor diretor (Leo McCarey). Ele ainda venceria mais dois, pela direção e roteiro de O Bom Pastor e acumularia mais cinco indicações (incluindo pela composição de An Affair to Remeber, tema de Tarde Demais para Esquecer).
Sim, estamos numa época em que comédias românticas eram apontadas como um dos melhores filmes do ano. A história não é muito diferente das de hoje. O casal Lucy e Jerry, se sentindo culpados por seus adultérios, decidem se separar com pouco mais de dois meses de casados. A perda da confiança não acabou com o sentimento de um pelo outro e os dois se pegam numa birga besta sobre a guarda de um cachorro para continuarem se vendo. Fingindo que estão levando a vida, Lucy conhece Dan, um sulista cheio da grana e Jerry conheçe Barbara, uma herdeira mais rica ainda. Quando o ex-casal começa a boicotar um o encontro do outro, todo mundo já sabe o que vai acontecer.
Porém, há coisas em Cupido é Moleque Teimoso que merecem ser ditas. Primeiro: uma produção de 72 anos atrás que não condena o divórcio. Aliás, o roteiro original foi encenado na Broadway em 1922, sendo essa a terceira versão para o cinema de The Awful Truth (a primeira, ainda no cinema mudo, é de 1925 e a segunda de 1929). O filme ainda teria uma quarta versão em 1953, com o nome A Meia-Noite do Amor. Segundo: a clara improvisação dos atores (que é fantástico). O humor do filme é quase todo de forma sutil, utilizando pequenos gestos e algumas caras e bocas. É nítido que aquilo não é algo facilmente roteirizado e nem decisão única do diretor (que não carregaria sozinho tamanha responsabilidade).
De resto, há os desencontros e os mal-entendidos, o receio do casal em retomar o relacionamento e algumas passagens engraçadas, como sempre. A melhor delas é quando o advogado dos dois, ao telefone, tenta convence-los a não se separarem dizendo "o casamento é uma coisa linda", enquanto discute com sua esposa por conta de uma besteira. Foi apontada como uma das 100 maiores comédias e um dos 100 maiores romances do cinema americano.
Cupido é Moleque Teimoso é reverenciado até hoje mais por ter se mantido atual do que por ser inesquecível. Aliás, os últimos vinte minutos no estilo "road movie" talvez o torne mais corajoso e atual do que muitos que estão em cartaz nesse momento. Não é a única comédia romântica de décadas passadas que deixam as de hoje com jeito de "já vi esse filme antes" (existem outras até melhores). Ao longo do tempo eu falo de outras. Se você duvida, é só comparar. É a verdade nua e crua. Ou como se diz em inglês, it's the awful truth. Nota 8



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terça-feira, 14 de abril de 2009

Aconteceu Naquela Noite



Estreia - 9/4/1934 - Em 1934, Frank Capra ainda não era o aclamado diretor de A Mulher Faz o Homem, A Felicidade não se Compra e Do Mundo Nada se Leva. O diretor, então com 37 anos, ainda era sinônimo de desconfiança, apesar do bem sucedido Dama por um Dia, no ano anterior. Já Clark Gable e Claudette Colbert eram astros de Hollywood e nenhum deles teria aceitado fazer Aconteceu Naquela Noite se não fossem cumpridores de ordem dos seus estúdios.
Talvez hoje esse filme seria apenas mais uma comédia romântica, protagonizada por uma Lindsay Lohan pré-escandalos ou um John Cusack mais jovem, mas nunca por um Tom Hanks ou uma Julia Roberts. É por isso que Aconteceu Naquela Noite é fantástico, por ter sido realizado no momento certo e ter se tornado o primeiro grande clássico do maravilhoso diretor. A partir daí todos os longas de Capra teriam o selo de qualidade do mesmo e ele emendaria um grande filme atrás do outro.
Além disso, Aconteceu Naquela Noite foi o primeiro filme a vencer nas cinco principais categorias do Oscar, premiando Gable e Colbert, que nunca botaram fé no filme, mas chamou a atenção do povo norte-americano, que deu ao filme um inesperado sucesso de bilheteria marcando a trajetória de um dos maiores da História.
O que mais me surpreendeu nessa produção que completa 65 anos foi o ritmo ágil e a linguagem moderna, o que mostra que poderia ser um sucesso hoje. A interessante história de Ellie Andrews, que foge do pai para poder viver com seu marido e de Peter Warne, jornalista recém-desempregado à procura de uma notícia é encantadora (muito pelo carisma dos astros - ele com 33 anos e ela com 31).
Na época o medo era retirar qualquer referência à viagem de ônibus do título, pois filmes desse gênero costumavam ser um fracasso. Mas Capra foi além e inaugurou um gênero muito mais bem-sucedido e copiado ao longo das quase sete décadas seguintes: o típico filme “água-com-acúçar”. A velha brincadeira de gato e rato, onde a raiva vira amor rendeu alguns bons filmes, mas o normal é que poucos fiquem na memória. Como em 1953, quando surgiu Sabrina, 1961 quando foi lançado Bonequinha de Luxo, ou 1990, ano de Uma Linda Mulher. No novo século, talvez mereça destaque Do Que as Mulheres Gostam, Casamento Grego e O Diário de Bridget Jones, como exemplos de sucesso de público e crítica numa história doce e fascinante.
Aconteceu Naquela Noite foi o primeiro deles, foi o primeiro realmente inesquecível, usando a clássica patricinha, que só sabe resolver as coisas na base do dinheiro e o conquistador, que tem como dotes saber molhar donuts e pedir carona (na cena mais engraçada do filme) e usa a mocinha como manchete. O roteiro de Robert Riskin ganha fôlego quando a viagem de ônibus para por causa da chuva. Riskin (também premiado com o Oscar pelo longa) também escreveria O Galente Mr. Deeds e Do Mundo Nada se Leva para o mesmo diretor. As inesquecíveis passagens sobre a "muralha de Jericó" fazem com que o filme seja ainda mais adorável.
É importante frisar que Capra sempre mandou mensagens positivas em suas obras e aqui ele não defende o adultério. Ele mostra como Ellie, sempre cercada por criados e mimada desde criança, não poderia saber o que era amor de verdade antes de pegar aquele ônibus para Nova York. Com 75 minutos de filme a linda cena em que a personagem de Colbert decide mostrar seus sentimentos à Gable mostra bem onde a história queria chegar.
O que se segue é uma reviravolta e uma série de mal entendidos como acontece em toda comédia romântica que se preze. Num dado momento um personagem fala que "você pensa que tem uma boa história e o final estraga tudo". Claro que não é o caso de Aconteceu Naquela Noite e é incrível como Frank Capra (que receberia seu primeiro Oscar) nos motivava a torcer por seus protagonistas. Nota 10




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