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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Ano que Vivemos em Perigo



Sinopse: Indonésia, 1965. Guy Hamilton (Mel Gibson) é um repórter australiano ambicioso e pouco experiente, que em sua primeira missão internacional chega a Jacarta para cobrir a agitação dos últimos momentos do regime de Sukarno. Lá Guy recebe a ajuda essencial de Billy Kwan (Linda Hunt), um fotógrafo anão, que faz para ele importantes contatos com as facções em luta e lhe apresenta a bela Jill Bryant (Sigourney Weaver), assessora do adido militar da embaixada britânica. Alguns acontecimentos precedem a queda do ditador e dentro deste contexto Guy se envolve com Jill. (Fonte: Adoro Cinema)

Motivo: A vida de um novato correspondente internacional

Estreia - 17/12/1982 (na Austrália) - O australiano Peter Weir, na época com quase 40 anos, conseguiu cavar seu lugar em Hollywood dirigindo em seu país O Ano que Vivemos em Perigo. Sua produção seguinte, A Testemunha, foi responsável pela primeira indicação deste ao Oscar de melhor diretor. Ele foi lembrado na mesma categoria por Sociedade dos Poetas Mortos, O Show de Truman e O Mestre dos Mares. Além da lembrança como produtor na categoria filme em Mestre dos Mares e roteirista de Green Card - Passaporte para o Amor. O argumento do roteiro em questão é difícil de ser criticado. É claro que uma trama que narra a vida de um repórter em sua primeira experiência como correspondente estrangeiro merece um filme. Porém, o roteiro que aparentemente tenciona tratar da responsabilidade social da carreira de jornalista e da dificuldade na busca por fatos sem se envolver com a notícia, sai dos eixos na segunda metade, quando parece perder ritmo e o fôlego.

Por tratar de um tema polêmico, o longa esteve banido da Indonésia até 1999. Um dos equívocos da produção, aliás, é atribuir ao povo javanês diálogos feitos em filipino. Talvez deixar a direção a cargo de Phillip Noyce fosse mais acertada, eis que não foram poucas as divergências profissionais entre Weir e C.J. Koch, autor do livro autobiográfico que dá origem ao filme e colaborador do roteiro. A parte dramática revela-se incipiente e o conflito entre comunistas e direita militar é deixada à parte, o que tira a dinâmica do filme. O elenco é liderado na verdade por Linda Hunt, que conseguiu o Oscar de atriz coadjuvante em 1984 por um feito notável: interpretar um homem. Ela perdeu o Globo de Ouro para Cher por Silkwood - O Retrato de uma Coragem e não foi lembrada nenhuma vez para qualquer prêmio depois disso. O diretor a escalou, aliás, após diversos testes com homem, sem obter êxito.

Mel Gibson que após atingir o estrelato em Mad Max realizou dois filmes com Weir com relativo sucesso (antes deste, eles lançaram Gallipoli) e Sigourney Weaver que também viajava na fama de Alien - O Oitava Passageiro lançado dois anos antes, não comprometem mas não trazem nada de especial aos protagonistas. Os mais novos lembrarão de Diamante de Sangue, com a diferença que neste o protagonista é um local. Além disso, O Ano que Vivemos em Perigo possui montagem e trilha sonora pouco inspiradas e um dilema mal retratado e de conclusão frustrante. Falha ao colocar em pauta a covardia em abdicar da carreira e optar por um quase-amor ao invés de reportar a História. Uma tentativa de se criar um clássico inspirado em um evento real, que só caía bem na época da inocência. Nota 5



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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Querelle



Sinopse: Na cidade portuária de Brest, nada é o que parece ser. Neste cenário de sonho, Querelle, um marinho amoral que desperta sentimentos de amor e morte em homens e mulheres, planeja crimes e procura satisfazer os seus desejos. (Fonte: Cine Dica)

Motivo para assistir: Dizer não à intolerância

Estreia - 16/09/1982 (na Alemanha Ocidental) - Um bar à beira de um porto administrado por um homem liberal que não liga se sua mulher faz sexo com a maioria dos frequentadores assíduos. Quando um deles é informado pela face cartomante da senhora citada acima que o irmão Querelle corre o perigo de encontrar a si mesmo, o espectador que ignora a obra do diretor alemão Rainer W. Fassbinder jamais imagina o que está por vir. A trama é baseada no livro de Jean Genet, polêmico escritor que obteve sucesso graças às referências feitas por Jean Paul Sartre. Voltando ao filme, as únicas indicações para a produção na época foram para o Troféu Framboesa de Pior Canção. Porém, o filme foi exibido no Festival de Veneza e perdeu o Leão de Ouro para O Estado das Coisas de Win Wenders. Na época Marcel Carné, o presidente do Júri naquele ano deu uma entrevista mostrando sua frustração por ele não ter convencido os outros jurados a dar a Querelle o Leão de Ouro.

Fassbinder cria um ambiente de cores e trilha forte, faz referência ao experimentalismo dos seguidores de Godard no uso do som, narração e notas escritas ao longo de um filme que, ao contrário do diretor francês, assume o uso de um cenário a todo instante. Tudo para contar como nasce em um homem que convive com e em ambientes heterossexuais o desejo de experimentar o amor de uma pessoa do mesmo sexo. Foi o último longa de Fassbinder, que em 1982 teve uma overdose de drogas aparentemente proposital.

A demora para o filme se definir é proposital para chocar e ofender alguns, desde a referência à crucificaxão de Cristo até as cenas de sexo aparentemente gratuitas de tão grotescas. Porém, quando foca nos sentimentos de dúvida, amor, obsessão e deslumbramento (todos em conflito) a história cresce pela coragem em marcar uma posição. Talvez a inversão na maneira de destrinchar o roteiro fosse uma opção mais acertada. Porém, não tira a qualidade de Querelle, pronto para entrar em cartaz essa semana com o mesmo frescor de três décadas atrás. Nota 7




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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Akira






Sinopse: Kaneda é um líder da gangue de motoqueiros, que tem um amigo próximo envolvido em um projeto governamental secreto chamado Akira. Para salvar seu amigo, Kaneda pede ajuda para vários grupos como: ativistas anti-governo, políticos gananciosos, cientistas irresponsáveis e poderosas forças militares. Durante o confronto, Tetsuo recebe uma força sobrenatural que resulta em consequências para o resto de sua vida. (Fonte: Interfilmes)

Motivo: Gênese da animação japonesa moderna

Estreia – 16/07/1988 (no Japão) – A animação futurista Akira é apontada como responsável pelo filão de desenhos japoneses que invadiram o mundo na década de 1990 – inspirados em mangás. Katsuhiro Ohtomo desenhou, roteirizou e dirigiu na sua incontestável obra mais importante. Realizado em uma época onde o Comunismo sofreu sua maior derrota com o final da União Soviética, o roteiro transporta o espectador para a Tóquio de 2019 – pós III Guerra Mundial, destruída por uma bomba atômica e em vias de sediar as Olimpíadas.

Não devemos nos enganar, Akira é uma animação feita para adultos, de narrativa difícil e metáforas inalcançáveis para crianças. Será apreciada pela "Geração Cavaleiros do Zodíaco" pelos traços de HQ moderna e pela violência desmedida. Curioso descobrir que foi uma das primeiras vezes que uma animação japonesa teve vozes gravadas depois da produção do material, algo que os Estados Unidos sempre fez, mas que no Japão tinha esse procedimento invertido. Os cinéfilos encontrarão algo de Laranja Mecânica quando Tetsuo é testado com experimentos em seu cérebro e verão traços de Matrix em algumas cenas de ação. Mesmo assim, o longa possui brilho próprio e é de admirável originalidade ao abordar a maneira de pensar de um grupo de adolescentes em um país paranóico e com medo do novo como o Japão.

O ponto principal do longa é questionar a legalidade do Governo ser o detentor de um poder ou força superior e ilimitada, caso ela exista - abordando inclusive a legitimidade da prática do terrorismo. Esse aspecto faz com que Akira não envelheça no conteúdo, mesmo que tenha o feito na forma. A conclusão complicada, entretanto, prejudica não só o entendimento, mas a diversão do espectador. Leonardo di Caprio está produzindo uma refilmagem de Akira em Hollywood a ser lançada em breve. A Sony tentou algo do tipo na década de 1990, mas o custo estimado era de 300 milhões, um risco que não quis correr. A Warner já havia cortado o orçamento atual de 230 para 90 milhões. Essa semana ela reduzi novamente, para 65 e parou a produção. Oremos. Nota 7



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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Faça a Coisa Certa



Estreia – 30/06/1989 – Faça a Coisa Certa, inspirado em um evento real e com título inspirado em frase de Malcom X, é um filme que dialoga pouco com o público brasileiro. Aliás, o longa que revelou ao mundo Spike Lee (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro) é puro cinema americano para os americanos – apesar de Cannes ter listado a produção entre as indicados à Palma de Ouro. Há pontas de início de carreira de Samuel L. Jackson, Rosie Perez (em sua única cena de nudez, já que a mesma se negou a repetir a experiência na carreira) e Martin Lawrence.

O roteiro situa o espectador na pobre região do Brooklyn, na Nova Iorque do final da década de 1980 no dia mais quente do ano. Negros, hispânicos, asiáticos e italianos vivem em constante tensão enquanto racionam água e luz. Spike Lee, mesclando a história com o som do hip-hop, pinta a rotina de diversos personagens nos primeiros minutos de Faça a Coisa Certa, tornando o filme pouco interessante para aqueles que nada sabem sobre ele, desconhecendo sua importância. Mesmo assim é inegável a excelente direção do ora novato, incluindo cenas com diálogos inteiros improvisados (os maiores exemplos são as cenas do trio de negros de meia-idade que conversam na calçada, trazendo um toque de humor a Faça a Cosia Certa).

Porém, quando a história se foca na Pizzaria do Sal (Dannny Aiello, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em papel que não foi aceito por Robert de Niro) por volta dos quinze minutos, é possível traçar de maneira mais objetiva o que pretende o diretor e roteirista. Quando um dos clientes da pizzaria de propriedade de italianos, mas freqüentada exclusivamente pelos negros questiona a “parede da fama” do local, abre-se a porta da discussão racial.

Sal se orgulha dos descendentes de italianos que venceram na América, como Al Pacino, Robert de Niro e John Travolta, mas uma voz da comunidade local começa a questionar o porquê de limitar a homenagem a apenas um dos grupos de imigrantes, já que na região diversas etnias convivem harmoniosamente sendo os negros, inclusive, maioria.

Os dois filhos de Sal se dividem: enquanto o mais velho deseja se mudar do Brooklyn e não se envolver mais com negros, o mais novo se mostra mais compreensivo, fazendo amizade com Mookie, o entregador de pizzas negro, interpretado pelo próprio Spike Lee e responsável por ligar as pontas da história (para ao final rompê-las de maneira abrupta).

O grande mérito de Lee foi levar os problemas de seus pares à tela grande de maneira atraente. É o típico “filme-símbolo”, com personagens e trilha que não sairá fácil da memória de quem assiste (principalmente Fight The Power, do Public Enemy). O reflexo se encontra na cultura pop atual, que investe grande parte de suas energias em artistas negros, principalmente na música. Faça a Coisa Certa possui roteiro dinâmico, é simpático, mas talvez tenha envelhecido para o grande público, que talvez não o considere tão atraente.

Destaco Ossie Davis no papel de Prefeito e os fortes argumentos a favor dos negros embutidos no roteiro, como no momento em que Mookie convence o filho mais velho de Sal, Pino (John Turturro, em papel que Lee queria que fosse de Matt Dillon), de que grandes referências modernas – não só culturais – são de pessoas de cor, como Nelson Mandela, Michael Jordan, Eddie Murphy e Michael Jackson.

Mas não espere uma história que retrate negros apenas como segregados e injustiçados. Spike Lee se preocupa em apontar alguns defeitos, cutucando a própria ferida. O principal deles é a falta de mobilização, como uma espécie de acomodação com o preconceito que neles recai. Percebe-se isso no boicote proposto por Buggin’ Out (Giancarlo Espósito, que ironicamente descende de italianos) que só consegue a adesão de duas pessoas. É deste personagem o famoso bordão “continue preto”. Mesmo sem qualquer perspectiva, a maioria dos abastados ali não procura uma mudança efetiva.

Porém, a ausência daquele diálogo que seria aberto com o tal boicote gera uma conclusão surpreendente do roteiro. A princípio, Spike Lee pode parecer instigar o ódio, mas sua mensagem ao fim entrega a interpretação que o diretor busca: mostrar um extremo para provocar uma reflexão. Vinte anos após o lançamento, observa-se facilmente como a cultura hip-hop e os anseios do povo que a criou restam-se totalmente descaracterizados. Como disse no início, Faça a Coisa Certa não dialoga com o público a qual me insiro, mas é perfeitamente possível admirar tal filme. Nota 7


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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Num Lago Dourado



Estreia - 22/1/1982 (nos EUA) - Num Lago Dourado, elogiado por dez entre dez críticos, é o tipo de filme que clama por ser visto por todos. Não importa se você é um pré-adolescente, como Billy Ray, um homem de meia-idade como o carteiro Charlie, uma mulher quarentona que não se encontrou na vida como Chelsea ou uma pessoa no outono da vida, como Ethel e Norman (cada um à sua maneira).

Os currículos dos três atores que lideram o elenco é simplesmente magnífico. Norman é vivido brilhantemente por Henry Fonda, que venceu o Oscar de melhor ator por esse prêmio mesmo tendo recebido um prêmio honorário no ano anterior (o famoso prêmio de consolação). Fonda é ator mais velho a receber o trofeu (76 anos), mas não pode receber em mãos porque já estava muito doente e faleceu pouco depois. Antes disso ele tinha sido indicado duas vezes, em 1941 pela atuação em Vinhas da Ira e 1958 como produtor de Doze Homens e uma Sentença. Em Num Lago Dourado ele faz o clássico velho ranzinza, que vive lamentando sua velhice, falando da morte e dando patada em todo mundo. Norman na verdade está inconformado com o fato de estar velho e tem medo do que pode acontecer. James Stewart queria muito fazer o papel de Norman, mas como Jane Fonda comprou os direitos da peça, ela aproveitou a oportunidade para trabalhar pela única vez com seu pai.

Ethel é interpretada por Katharine Hepburn e isso significa que você está assistindo a um dos últimos trabalhos de uma das cinco melhores atrizes de todos os tempos (e isso é fato, não dá para deixar Hepburn fora da lista). Ela quase foi substituída por Barbara Stanwyck por conta de uma cirurgia que teve que fazer durante as filmagens. Com Num Lago Dourado Hepburn ganharia seu quarto Oscar, depois de vencer em 1934, 1968 e 1969 - no total foram doze indicações, todas como atriz principal. Foram 3 BAFTAs (um por essa produção), um prêmio em Cannes, 1 Emmy, 1 prêmio em Veneza e oito indicações ao Globo de Ouro. Sua personagem parece levar numa boa a velhice e até sente prazer em relembrar o passado glorioso na casa à beira do lago.

O sentimento de nostalgia toma conta do longa nos primeiros vinte minutos. Com diálogos bem humorados do casal de protagonistas, percebe-se logo que Num Lago Dourado tem um ritmo próprio, baseado mais nas discussões dos personagens do que em algum tipo de acontecimento. A presença dessas duas grandes estrelas, inspiradas como pouco se viu nas telas de cinema, é sensacional. Porém, a história mesmo começa com a chegada de Chelsea, filha do casal, para o aniversário de 80 anos de Norman.

Chelsea é vivida por outra excepcional atriz, Jane Fonda. Foram dois Oscars de melhor atriz (em 1972 por Klute - O Passado Condena e em 1979 por Amargo Regresso), além de outras cinco indicações. Coloque aí mais sete Globos de Ouro, dois BAFTAs e um Emmy. Sua personagem é traumatizada por ter sido uma criança gorda e não conviver bem com o pai. Ela levou essa amargura por toda a vida e não consegue demonstrar carinho por Norman (e é dessa forma que ela o chama), tratando o mesmo com agressividade (e recebendo patadas de volta).

De namorado novo, Chelsea decide viajar e deixar o futuro enteado, Billy Ray (Doug McKeon), morando um mês com os pais. Em seus momentos mais contemplativos, Num Lago Dourado utiliza uma bela trilha sonora com imagens lindas da natureza, som dos pássaros em um cenário perfeito para se passar toda a vida. O compositor Dave Grusin foi indicado ao Oscar oito vezes (inclusive por essa produção) entre 1979 e 1994 e venceu em 1989 por Rebelião em Milagro (os outros seis foram: O Céu pode Esperar, O Campeão, Tootsie, Susie e os Bakers Boys - pelo qual ganhou um Grammy, Havana e A Firma). Destaque também para as trilhas de A Primeira Noite de um Homem e Três Dias do Condor.

O diretor Mark Rydell (que antes fez Os Cowboys e A Rosa) encontra um excelente equilíbrio entre esse momentos e o drama familiar que recheia o longa, sendo também lembrado pela Academia. Uma das qualidades do roteiro de Ernest Thompson (que adaptou sua própria peça da Broadway) é não tomar partido de nenhum dos lados. Por serem mais frágeis, os pais geralmente são retratados como injustiçados em filmes desse tipo. Em Num Lago Dourado tanto Chelsea quanto Norman são culpados que enxergam a própria culpa mas adiam a solução desse problema.

Sabe o clichê do "ele se foi e eu nunca disse 'eu te amo'"? Então, é isso de uma maneira muita mais complexa. Uma pena que essa relação pai-filha tenha sido pouco explorada no filme (apesar de ser a alma de Num Lago Dourado). Mesmo assim o roteiro venceu o Oscar em sua categoria (além dos três prêmios foram sete indicações: melhor filme, Jane Fonda como atriz coadjuvante, diretor, edição, trilha, som e fotografia). Os três protagonistas levaram o American Movie Awards, Hepburn ganhou o BAFTA (mais cinco indicações), três Globos de Ouro (filme de drama, ator de drama e roteiro) com outras três indicações, Dave Grusin foi indicado ao Grammy, Rydell venceu o prêmio do Sindicato de Diretores e Thompson o de roteirista (além de um National Board of Review para Henry Fonda). Talvez uma das grandes injustiças da história do Oscar foi Carruagens de Fogo vencer o prêmio de melhor filme em um ano em que, além de Num Lago Dourado, Warren Beatty "jogou nas onze" no maravilhoso Reds.

Julie Andrews e Christopher Plummer reeditariam a dupla de A Noviça Rebelde em uma produção para a TV de Num Lago Dourado, transmitida em 2001. Por falar da morte iminente, o filme é muito tocante e a beleza do lugar (que fica na Nova Inglaterra) impressiona. Aliás, a transformação final de Ethel é a melhor coisa no final das contas, já que entendemos o motivo dela conviver tão bem com sua velhice, um assunto pouco falado em Hollywood naquele início da década de 1980 (muitos filmes bons vieram depois desse, como Tomates Verdes Fritos, Conduzindo Miss Daisy e, mais recentemente, Iris, Longe Dela e Vênus). Em cada momento do longa temos a sensação de estarmos assistindo uma aula de interpretação incomparável. A mensagem que fica de Num Lago Dourado é que nossos pais nunca deixam de ser nossos pais e grandes atores nunca deixam de ser grandes atores. Nos dois casos só podemos lamentar e evitar suas ausências. Nota 9


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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Amadeus



Estreia - 8/10/1984 - Eu me lembro que da primeira vez que assisti a Amadeus (já em DVD, pois o longa nunca frequentou a programação da TV), meu conhecimento sobre o diretor Milos Forman se resumia a Hair. Apesar do musical ter sido mais bem sucedido na Broadway do que na tela grande, me agradou muito a história sobre o grupo hippie que se opunha à Guerra do Vietnã. Agora, da segunda vez que vejo a biografia de Mozart - toda filmada em luz natural e também adaptada do teatro - já sabia desde o início que a nota seria 10, mas era necessário uma confirmação.

Apesar de ser um leigo em música clássica (o que é lamentável), tenho certeza absoluta que a trilha sonora não é menos do que magnífica, contando com as principais obras do maestro alemão. O compositor Maurice Jarre, falecido recentemente, levou o Oscar da categoria em 1985 por Passagem para Índia e chegou a brincar dizendo que foi sorte Amadeus não ter sido indicado ao prêmio (até porque nada na trilha foi composto para o filme). "Sobrou" para esse oito prêmios em onze indicações (filme, diretor, ator, roteiro adaptado, som, maquiagem, figurino e direção de arte), além de 4 Globos de Ouro, 4 BAFTAs e o César de filme estrangeiro .

F. Murray Abraham conduz o filme, que se preocupa em mostrar as duas caras de Salieri, dividido entre a inveja dos dons que não possuía (chegando a ter raiva de Deus por ter premiado outro homem com um dom que ele considerava divino) e a idolatria ao adversário. Tom Hulce é Mozart, amado por Deus (amadeus) em pessoa, que apesar da grande interpretação perdeu o Oscar para Abraham, em performance menos intensa mas igualmente perfeita. Você poderia ter visto no papel-título Kenneth Branagh (substituído por Forman que queria um elenco de atores americano), Mel Gibson e Mick Jagger (que chegaram a fazer testes) e até Walter Matthau (seria uma imposição do estúdio, desprezada por se tratar de um ator velho demais para o papel).

A primeira cena já mostra a tentativa de suicídio do velho Salieri, anos depois da morte de seu inimigo e o nome original do filme surge na tela - com o nome do roteirista Peter Shaffer - mostrando a visão um pouco indulgente, focando mais no compositor da corte austríaca do que no gênio Mozart. Porém, o próprio personagem de Abraham, nos primeiros minutos, mostra ao espectador a relevância do homem interpretado por Hulce na cultura moderna.

A vida de Salieri foi movida pela inveja já que este não se conformava que o homem mais talentoso que ele fosse menos dedicado, metido a conquistador, passando o dia enfrentando a nobreza e desacatando ordens que considerava injustas. Sem contar a risada esganiçada, resposável pelos momentos mais divertidos do filme. A ideia dessa risada foi tirada de cartas da época escritas por pessoas que conheciam o músico. Há ainda a excentricidade do homem que chegava a reger sua respeitada orquestra de peruca rosa. Entre outras características desprezíveis, Amadeus esbanjava mais dinheiro do que podia, mas era um gênio e não deixava de ser uma pessoa adorável (e, por que não?, incompreendida).

Milos Forman, que já tinha sido muito celebrado nove anos antes por Um Estranho no Ninho, só voltaria a receber aplausos doze anos depois, quando o polêmico O Povo Contra Larry Flynt venceu o Festival de Berlim. Aqui ele dá um show de direção, num filme que consegue ser ágil, apesar de ambientado no século XIX - muito por conta da curta duração das cenas de ópera. A maior, que mostra A Flauta Mágica, responsável pela popularização de Mozart, é também a mais caprichada e não dá chance para que os mais impacientes reclamem de cansaço.

Outro destaque é a maquiagem feita em F.Murray Abraham, quando Salieri conta sua história para um padre, de dentro de um hospício. O ator está irreconhecível. Mas o barato de Amadeus é conhecer mais sobre esse gênio, que morreu aos 35 anos e compunha tudo em sua cabeça, sem necessidade de rasurar nenhum trecho de partitura. Como ele desafiu os decretos imperiais e adaptou Figaro, peça teatral banida do reino. A forma como ele convencia o próprio Imperador, mostrando que o poder da arte supera qualquer tipo de censura. O próprio Mozart se considerava um homem vulgar de música sublime. E pagou um preço alto por ser autêntico e por quebrar tabus, inserindo balé nas suas óperas e compondo em alemão.

Quando o fantasma do pai começa a atormentar o artista, Salieri não poupa o inimigo e boicota as obras daquele, fazendo com que o jovem colecione fracassos. A segunda metade da produção foca nos últimos anos de Mozart, quando ele passou a ser um homem injustiçado. Sua morte já havia sido encomendada por Salieri, que pagou para que o próprio Mozart escrevesse seu réquiem. O que ainda deu uma sobrevida ao gênio foi quando ele abandonou esse serviço, já que ficou surtado com a presença do pai em seus pensamentos, passando a compor para o povo de Viena. Quando parecia que iria voltar ao topo, ele cai doente. Morre acreditando na amizade de Salieri, assim como Jesse James em Robert Ford. Ao ditar seu próprio réquiem, nos últimos momentos de vida, o espectador lamenta que Mozart tenha ido tão cedo e sem o devido conhecimento.

Sua experiência traria obras ainda mais espetaculares, mas nunca as ouviremos. Ainda foi enterrado de qualquer maneira, nos arredores do cidade. Restou a Salieri, que se auto-intitulou o campeão dos medíocres, chamar a atenção para o obra do gênio que ele matou e agradecer a Milos Forman e Peter Shaffer por hoje ser um nome conhecido, já que Mozart teve, além de tudo, uma história muito mais poderosa. A AFI em 1998 considerou este um dos cem maiores filmes do cinema americano em todos os tempos. Nota 10



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terça-feira, 14 de abril de 2009

Glória



Estreia - 1/10/1980 - Glória (vivida por Gena Rowlands) talvez seja o maior sucesso de público do diretor John Cassavetes, conhecido como o "Rei do cinema independente". O filme conta a história de mulher que se envolve com a máfia da cidade de Nova York ao salvar um menino porto-riquenho que teve sua família assassinada. O pai dessa família de classe média do Bronx era um dos contadores da organização criminosa.
Os primeiros minutos de Glória funcionam para mostrar de cara a maior qualidade da produção: a trilha sonora de Bill Conti (e o enquadramento perfeito das cenas). O jogo feito entre o som e as imagens lembra outro drama marginal de outro gênio, Caminhos Perigosos de Martin Scorsece. Aliás, o longa em questão está mais para década de 1970 que de 1980, já que foi recorrente naquela utilizar o submundo violento e a decadência das grandes capitais dos Estados Unidos para excelentes filmes.
Talvez Cassavetes (também responsável pelo roteiro) caísse no lugar-comum se contasse a história da vingança do garoto Phil (interpretado por John Adames em seu único papel como ator). Por isso que as duas horas de filmes se concentram na aparente impossível fuga da mulher e da criança. Com isso a trama vai ganhando força, principalmente na segunda metade, logo após a protagonista se envolver diretamente com a máfia quando começa a reagir às ameaças usando seu revólver. O sentimento de carinho que Glória passa a ter por Phil é mais do que esperado, mas Gena Rowlands vai conduzindo sua personagem de uma maneira brilhante, começando com uma Glória perdida, passando por uma Glória agressiva e sem meias-palavras até chegar próximo a uma Glória mãe, que faz tudo para defender o filho, já que ela realmente se apegou à criança.
A dupla com Phil está ok, apesar do menino John Adames exagerar um pouco em algumas cenas. Porém, nos momentos realmente importantes, ele não compromete. Rowlands foi indicada ao Oscar de melhor atriz, perdendo para Sissy Spacek por O Destino Mudou Sua Vida, filme-biografia interessante que qualquer dia eu comento aqui. Cassavetes já tinha sido indicado três vezes ao prêmio (como ator coadjuvante, roteirista e diretor) e seu trabalho, como sempre, é brilhante, tanto na direção quanto no roteiro (que exige a atenção do espectador até o fim). Em 1999, o diretor Sidney Lumet refilmou Glória, com Sharon Stone no papel-título, mas nunca tive a oportunidade de assistir. Nota 7

Assista abaixo a bonita abertura do filme com forte presença da trilha sonora:


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