Mostrando postagens com marcador 1920-29. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1920-29. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Melodia na Broadway (1929)



Estreia – 1/2/1929 (nos EUA) – Melodia na Broadway é um dos filmes (se não for o filme) mais fraco a ter no currículo o título de vencedor do Oscar de Melhor Filme. Digo isso porque já li crítico de cinema especializado em Oscar admitir que o cinéfilo que nunca assistiu à produção laureada em 1930 não precisa se lamentar.

O principal mérito a ser registrado fica por conta de ser tal filme o primeiro musical totalmente falado – já que O Cantor de Jazz era um longa sem falas e algumas poucas canções. Melodia na Broadway também inaugurou o playback, quase sem querer. A cena de “Wedding of the Painted Doll” foi filmada originalmente em duas cores (em corte que se perdeu, o que faria da produção a primeira colorida a receber o prêmio máximo de Hollywood). Porém, a coreografia foi rejeitada pelo estúdio. Sendo assim, a cena foi filmada novamente, mas utilizando a gravação antiga. Nasceu o playback e foi essa a melhor coisa que aconteceu, já que o som das outras cenas deixa a desejar.

Melodia na Broadway, apesar de ser hoje um filme pouco visto, foi um estouro de bilheteria. Com ingressos à época custando 35 centavos de dólar conseguiu lucro acima de 4 milhões – o que dá mais de 11 milhões de bilhetes vendidos e mostra a enorme diferença do apelo do cinema no Brasil (onde Titanic, o filme que mais levou gente para a frente da tela grande, vendeu 18 milhões de ingressos) e Estados Unidos (que há oitenta anos atrás levava quase o mesmo número de pessoas para ver um filme).

O sucesso fez com que Melodia na Broadway virasse uma série, com produções em 1935, 1938 e 1940 – todas estreladas por Eleanor Powell, ao lado de Robert Taylor nos dois primeiros e Fred Astaire no terceiro. Todavia, o elenco do “longa de origem” está longe de ser inesquecível. O roteiro conta a história de Eddie, cantor e compositor que prepara uma música para um show da Broadway e convida sua noiva Hank e a irmã desta, Queenie (as Irmãs Mahoney) dupla de sucesso do outro lado do país, para interpretar a canção na Meca do teatro americano.

Eddie é interpretado por Charles King, que depois de fazer sete filmes nos primeiros cinco anos da carreira, abandonou o cinema e rodou o país fazendo shows. Morreu de pneumonia no meio da 2ª Guerra Mundial, que contraiu ao fazer uma de suas apresentações para entreter as tropas. A irmã mais nova, Queenie, é vivida por Anita Page, que faleceu ano passado aos 98 anos. Depois de realizar dezenas de filmes até os 25 anos, virou presença rara no cinema. Já Hank é interpretada por Bessie Love, que teve carreira mais ativa e terminou a carreira com 138 trabalhos entre cinema e televisão, sendo indicada ao Oscar de Melhor Atriz por esse filme.

O início do filme, mostrando uma espécie de academia de dança, lembra um pouco Fama. A imagem panorâmica de Nova Iorque, logo após os créditos, foi “copiada” em outras produções, como Amor, Sublime Amor. Porém, não creio que Melodia na Broadway tenha servido de inspiração para nenhum desses longas posteriores. Com canções simples, a maioria dos números de dança longe de serem grandiosas e o foco do roteiro no triângulo amoroso entre as Mahoney e Eddie pouco se aproveita da história.

O compositor sempre gostou de Hank e enxergava em Queenie uma criança. Mas, como todos sabem, as crianças crescem... Queenie se torna uma mulher mais bonita, talentosa e simpática que a irmã mais velha. Quando Hank é cortada do número musical, esta ainda precisa assistir Queenie, cheia de vida, experimentar o sucesso solo. Porém, em vez de amargurada, Hank se mostra uma pessoa totalmente compreensiva, sem o desejo de guardar qualquer rancor – mesmo vendo seu noivo dando em cima da irmã sem nem disfarçar e a ponto de proibir Queenie de sair com um bon-vivant que fica cortejando a moça.

No número musical que utiliza playback (apresentado de maneira totalmente avulsa – sem ligação com o restante do roteiro) ainda podemos perceber um esboço de grande musical. No restante do tempo o fã do gênero deve se interessar apenas pela primeira metade em que é mostrada várias fases da produção de um show: composição, escolha do elenco, roupas, cenários, coreografias, noite de estréia, repercussão, etc. Além disso, claro, Melodia na Broadway praticamente inaugura o gênero e merece um registro.

A MGM fez uma homenagem a uma figura da época e cutucou outra. O sobrenome do produtor do show, Zanfield, é uma clara referência a Ziegfeld, mentor de grandes Follies na Broadway da época e personagem de outro filme vencedor do Oscar de melhor filme (Ziegfeld, o Criador de Estrelas – muito melhor que Melodia na Broadway). Já o “vilão” recebeu o nome de Jock Warriner, referência a Jack L. Warner, “cabeça” da Warner Bros e grande concorrente da MGM naquele tempo (Melodia na Broadway foi o primeiro filme falado deste estúdio).

Ironicamente hoje quem detém os direitos do catálogo da MGM é justamente a Warner, que possibilita às novas gerações assistir até mesmo o filme que tirava sarro da ex-concorrente. O gênero musical evoluiu tanto que é normal que se conclua que é dispensável uma sessão desse Melodia na Broadway. Dispenso até o corte original, dez minutos mais longo. Nota 4


Filmes comentados em 2009: 126
Filmes lançados em 2009: 42
Total de filmes do blog: 126

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Asas



Estreia - 12/8/1927 (nos EUA) - Primeiro vencedor do Oscar de melhor filme, foi um dos três que conseguiram o feito de vencer na categoria principal e não ter sido indicado ao prêmio de melhor direção (juntam-se à Asas Grand Hotel e Conduzindo Miss Daisy). O filme foi feito em homenagem aos soldados que morreram na Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918. Os Estados Unidos enviaram tropas dez anos antes do lançamento desse longa de 1927. E pensar que depois de tudo isso o mundo ainda passaria por uma segunda Grande Guerra, que renderia grandes filmes em Hollywood.
Além disso, Asas foi o único filme mudo a vencer o Oscar de melhor filme. Ao contrário da regra daquele tempo, não temos muitas caras-e-bocas e interpretações afetadas aqui. A maioria dos atores traz uma sutileza na forma de mostrar o que seu personagem pensa e diz. A história é universal: a vizinha apaixonada por jovem é preterida por moça mais rica. Já essa outra gosta de outro homem, da mesma classe social que ela. O que era para ser algo inocente ganha contornos sombrios com a chegada da guerra. A arma que o filme mudo tem é a trilha sonora e na primeira hora de Asas o que desperta mais interesse àqueles que vivem num tempo em que o cinema é completamente diferente é justamente a forma como a música carrega o longa nas costas, sendo a responsável pela magia do cinema, com uma simbiose perfeita entre o ritmo do filme e o ritmo da música.
Não é exagero dizer que a trilha sonora é a alma do filme e no cinema mudo a alma era praticamente o único recurso para conhecermos o que se passava na tela grande. Dando nome aos bois, David e Sylvia é o casal rico, ambos vivendo um amor correspondido. Já Jack e Mary são os mais humildes, ainda em busca do reconhecimento do amado. Por conta dos dois garotos gostarem da mesma moça, cria-se uma inimizade mortal, que se transforma durante o treinamento para o combate. Como todo bom filme de guerra, é nessa parte que o longa fica mais emocionante e, por vezes, bem divertido.
Sou da opinião de que Asas poderia muito bem ser refilmado hoje e faria enorme sucesso, com todos os recursos que temos. Isso porque o roteiro é muito bom. Uma curiosidade é ver Gary Cooper em início de carreira (com 28 minutos de filme), fazendo uma ponta como Coronel White, que ensinaria os meninos a voar, mas sofre um acidente fatal antes. Esse foi apenas o quarto trabalho creditado desse grande ator, que antes disso foi figurante de quase trinta filmes. Mas a estrela do filme é Clara Bow, que tinha atingido o auge de popularidade naquele ano com o filme It. Aliás, essa atriz, nascida em 1905 se apósentou aos 26 anos, depois de casar e ter filhos, mas tem um acervo de 56 filmes! Na época em que fazia sucesso, era considerada uma mulher sexy e chegava a receber 45.000 cartas por mês. Ela é o grande destaque do filme, atuando realmente muito bem.
Numa grande sacada do roteiro, Mary também vai para guerra, dirigindo o veículo que transporta medicamentos. O primeiro destaque negativo de Asas se dá na ausência de ação nos primeiros quarenta minutos. Só depois da morte do personagem de Cooper que o filme realmente engrena. Mas ele se sustenta no início pela curiosidade de ver um longa de mais de oitenta anos. Quando foi lançado, Asas desbancou A General, hoje uma obra-prima de Buster Keaton mas à época um fracasso que deixou o comediante falido. Talvez por isso que hoje esqueçam desse bom filme de guerra e se lembrem só do derrotado Keaton, que não chegou nem a concorrer à estatueta.
As cenas aéreas são consideradas históricas e marcaram época pela perfeição técnica, ganhando até um prêmio da Academia. Hoje poucas ainda convencem, mas é nítida a qualidade das tomadas. Quando os dois amigos caem num front inglês, o filme começa a cansar um pouco e começamos a pensar porque ele precisa ser tão longo. Uma breve cena nas Champs-Elysée (com direito a um pouco da moda da época) e a volta do romance entre Jack e Mary (ele salva ela sem saber e depois ela retribui o gesto, o que lhe custa o emprego nas Forças Armadas) ainda ajudam um pouco, mas aí já estamos a espera da batalha final, com os últimos momentos da Primeira Guerra.
A espera vale a pena, já que são aproximadamente cinquenta minutos de ação, numa maneira até moderna de se mostrar um filme de guerra (nas décadas seguintes o orçamento limitado diminuiria as batalhas nas produções do gênero). Pena que se perdeu muito tempo com cenas menos interessantes. O fim trágico de David parecia ter sido desenhado quando ele é capturado pelos alemães, mas o americano rouba um avião inimigo e quando estava quase chegando na base dos Aliados, quis o destino que ele fosse abatido por Jack, agora seu grande amigo. É importante reconhecer que há filmes bons sobre a Primeira Guerra, que foi um verdadeiro massacre, por conta de duas invenções aniquiladoras: as trincheiras e os aviões, o que tornou a batalha mais sangrenta. Quanto ao filme, se ele fosse uns 45 minutos mais curto, seria um clássico. Mas, apesar de tudo, esse foi o primeiro grande filme de guerra que Hollywood nos trazia. William A. Wellman ainda dirigia grandes produções e venceria um Oscar pela direção de Nasce uma Estrela, obtendo outras três indicações. Nota 7




Filmes comentados em 2009: 78
Filmes lançados em 2009: 21
Total de filmes do blog: 78