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terça-feira, 12 de maio de 2009

Divã



Estreia - 17/4 - Nos primeiros minutos de Divã fica nítida a autoria do texto original. A narração da personagem Mercedes (Lília Cabral) entrega a agilidade e facilidade de usar as palavras de Martha Medeiros, que escreve na Revista O Globo todos os domingos. Como acontece em suas colunas, não é tudo que ela fala que eu gosto e concordo, mas admito que é uma leitura fácil, por ser direta e usar o cotidiano mais comum possível para desenvolver suas ideias.

Percebe-se também que Divã utiliza muita coisa da peça de teatro (que é uma adaptação do livro). Geralmente transposições dessa forma de linguagem para o cinema são bem sucedidas, até mesmo no Brasil, com o filme A Partilha - que conta com a mesma Lília Cabral no elenco. Porém, Divã centraliza as ações na protagonista e o roteiro cai na perigosa armadilha do "ame ou odeie" a figura principal. Eu chego perto de odiar e explico o porquê mais à frente.

Primeiro, os elogios. O longa é a segunda produção nacional do ano a atingir a marca de um milhão de espectadores. A arte dos créditos é linda. Digo isso porque está virando rotina no cinema brasileiro esse capricho gráfico, o que é ótimo. Já alguns enquadramentos não são bem feitos. O principal exemplo é quando Mercedes está no meio da consulta e os closes de seu rosto deixam parte da fisionomia dela fora da tela. Parece besteira, mas é um defeito estético que não fica bem.

A história mesmo é daquelas que me revoltam um pouco. Mercedes tem dificuldades como todo ser humano. A mais comum talvez seja não gostar de sua profissão - o amor dela está nas artes plásticas e não em ser professora particular de matemática. Como Martha Medeiros é uma espécie de "Paulo Coelho do mundo material", ela adora dar voz a mulheres que buscam independência e clamam por mais felicidade, mesmo sem saber como, onde nem porque estão infelizes e vão buscar a tal independência.

Será que Mercedes procura problemas onde não tem? Eu creio que sim. Suas divagações no divã permitem a ela uma reflexão que faz mais mal do que bem. O roteiro inteligentemente não dá voz ao Dr. Lopes, deixando o papel de Lília Cabral praticamente sozinha em seus pensamentos. Uma coisa também comum em filmes brasileiros é o chamado "toque trágico" e ele já começa pela trilha sonora, que não condiz com uma produção que é vendida como uma comédia.

Falando nisso, Divã é realmente engraçado. Tudo bem, a maioria das piadas é dependente do palavreado mais sujo que só é permitido no cinema e no teatro (mas programas e canais de televisão vêm mudando isso), só que isso não importa. É engraçado sim. Porém, tudo quase vai por água abaixo pela falta de sentido em alguns atos da protagonista. Uma neurose que corroi seu casamento, o pensamento mais individualista que a leva a um adultério, ao consumo de drogas e a lugares que ela não quer estar (aliás, a cena mais engraçada se passa justamente numa boate gay).

Lília Cabral está fantástica no papel, se expondo na medida certa em um filme que promete marcar sua carreira definitivamente. Quando as coisas não dão certo e Mercedes se torna mais amarga do que antes, a atriz tem a oportunidade de mostrar seu repertório dramático e não decepciona. Se não fosse Cabral e sua maneira adorável de conduzir a história, Divã seria bem pior.

Acredito que de ruim mesmo no filme temos apenas essa bobeira de celebrar imperfeições e puxar sardinha para a doutrina do "carpe diem", que permite grandes aventuras mas que trazem consequências avassaladoras. O que me assusta é que tanto os realizadores do filme (e incluo a autora do livro Martha Medeiros) quanto a grande maioria do público parece não se dar conta do quanta coisa fracassa na vida de Mercedes. Todo mundo ri o tempo todo, mas quem se arrisca a seguir o que é dito naquele divã? Nota 6



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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Limite



Para ser o 100º filme comentado pelo blog escolhi uma produção nacional que andou perdida por décadas e hoje é referência obrigatória para aqueles que desejam entender melhor o cinema. Antes de falar sobre Limite, abro aspas para o crítico Jaime Biaggio, que trabalhou por seis anos em O Globo e fala sobre esse longa no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer (mais pra frente essa lista será publicada aqui também) e que me motivou a assisti-lo:

"Único filme dirigido por Mário Peixoto (apesar de não lhe terem faltado ideias e projetos inacabados), Limite é uma verdadeira lenda do cinema brasileiro. E, como ocorre com as lendas, mais gente ouviu falar dele e/ou bateu os olhos em alguma foto de seus personagens num bote mirando o mar do que efetivamente chegou a vê-lo. Rodado em 1930 e exibido pela primeira vez no ano seguinte, no Cinema Capitólio, no Rio de Janeiro, foi aclamado pela crítica como obra de vanguarda, mas não chegou ao circuito comercial, sendo incompreendido pelo público (a narrativa era elíptica, sua lógica mais sensorial do que cartesiana). Houve exibições em Londres e Paris, mas, no Brasil, o filme só seria visto esporadicamente nos anos 40 e 50. Nas duas décadas seguintes desapareceu totalmente de circulação, pois os negativos originais necessitaram de um longo trabalho de restauração (nota do blog: sobre essa restauração leia mais após os meus comentários).

No entanto, quando o filme chegou novamente ao público, em VHS, nos anos 80, a lenda estava criada. Orson Welles o teria visto em sua passagem pelo Brasil, em 1942. Sergei Eisenstein o teria assistido em Londres, no início dos anos 30, e escrito um texto entusiasmado sobre o cinema inovador da América do Sul. Essa última história, a principal peça do folclore associada ao filme, se revelaria falsa. Hoje se sabe que aquele texto, divulgado na época por Peixoto como se tivesse sido publicado na prestigiosa revista Tatler, era na verdade da autoria dele mesmo. Não houve, contudo, qualquer conotação de 'desmascaramento' atribuída à descoberta da mentira, pois novas gerações de críticos e estudiosos já haviam adotado o filme, a despeito do desconhecimento do cineasta russo. Mas a quase total ausência de diálogos, com a justaposição poética de imagens aparentemente desconexas servindo como único guia da trama, apontava para um parentesco real com o cinema de Eisenstein. A moral da história, na visão dos fãs, parece ser que ele pode não ter escrito o texto, mas deveria tê-lo feito. À margem de todas as interpretações resta o filme, incompleto (há trechos que se perderam) e ainda pouco visto. Dois homens, uma mulher, um barco, o oceano, uma trilha sonora de música clássica, algumas sugestões de histórias passadas. Ao redor deles, tudo o que o espectador quiser enxergar. (1001 Filmes para Ver Antes de Morrer / editor Steven Ray Schneider - tradução de Carlos Irineu da Costa, Fabiano Morais e Lívia Almeida - Rio de Janeiro: Sextante, 2008, pg. 85)".


Capa de revista francesa que inspirou Mario Peixoto (essa imagem é reproduzida no início e no fim de Limite por uma das personagens).

Estreia - 17/5/1931 - Dito isso, vamos às minhas observações sobre Limite, conhecido por alguns como Um Cão Andaluz (1929) da América Latina. Primeiro, a discussão acerca do nome. A intenção de Mario Peixoto (filho de pais ricos e que estudou artes na Europa) era aproximar personagens e espectadores aos seus limites, creio eu. A trilha, toda com música clássica (e ressincronizada à época da restauração) é linda e sem ela o longa seria ainda mais difícil do que ela já é. As cenas soltas, como urubus voando, a mulher algemada, close dos olhos, são explicadas ao longo do tempo.

Por não utilizar palavras, o filme não foge da excessiva contemplação e os três atores demonstram a solidão e a tristeza nas suas interpretações. Depois de dez minutos de uma poesia cinematográfica, Peixoto começa a contar a primeira história, mostrando uma fugitiva caminhando pela estrada e, no flashback do flashback, chegando à cumplicidade do carcereiro. Quando a trama volta para o barco algumas imagens que mal conseguiram ser restauradas se mostram numa qualidade ruim, como se o negativo tivesse podre - até chegarmos ao tal trecho perdido, com pouco mais de vinte e cinco minutos.

A história do homem é um pouco mais dinâmica mas há momentos em que nem todas as intenções são perdidas. Sei que é uma obra aberta e interpretar Limite é uma coisa muito pessoal, mas mesmo a beleza dele sendo a necessidade de dar um entendimento a todas as cenas, há partes em que o espectador cansa um pouco desse surrealismo. Meus momentos preferidos são aqueles em que o diretor brinca com as imagens, fazendo um jogo que não seria possível no cinema falado.

Um exemplo da poesia do filme é a parte em que Peixoto mostra que o homem perdeu sua mulher, mostrando várias vezes duas linhas de pegadas na praia para depois mostrar apenas uma - aliás, são longos minutos em que o personagem apenas caminha e cuida da esposa. Apesar de ser muito contemplativo, gosto de Limite por ser vanguardista, ter muita qualidade técnica e por se concentrar nas pessoas, com histórias interessantes. Visto de longe e de maneira rasa o longa me lembrou o conceito da famosa "nau dos insensatos" (e não apenas o filme de 1965 - sobre esse eu falo outro dia), mas a ideia de passageiros perturbados (no caso de Limite até transtornados) que vagam sem direção, não se importando muito pro lugar aonde chegarão.

Mario Peixoto faleceu em 1992 aos 84 anos. Na década de 1980 ele recebeu ajuda de Walter Salles, que além de diretor é apaixonado por cinema. Mesmo realizando Limite com 21 anos, Peixoto nunca terminou outro longa. Imagina como ele poderia ter feito muito mais para o cinema brasileiro com sua mente experimental. Nota 9



A primeira restauração de Limite foi iniciada em 1959 e finalizada em 1978. Clicando aqui você lê uma reportagem do Jornal da PUC com uma entrevista com um dos restauradores. Foi exibido em Cannes em 2007 e a cantora Adriana Calcanhotto, outra fã do longa, compôs a canção O Mocho e a Gatinha (para crianças) fazendo referência a algumas cenas. Para quem se interessar o filme tem passado no Canal Brasil com alguma frequência e não faltam blogs sobre cinema que falam muito mais sobre essa produção. Esse aqui é apenas um grão de areia na praia.


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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Se Eu Fosse Você 2



Estreia - 2/1 - Uma clássica continuação nos moldes do cinema americano, Se Eu Fosse Você 2 é o primeiro de muitos sucessos do cinema nacional em 2009 (pelo menos essa é a torcida de todo muito que gosta de cinema e que entende que o próprio país tem que ter uma produção forte no ramo). É importante que os produtores invistam em filmes que vendam bem, que atraiam público. E essa comédia surge de um longa original que atraiu 3,6 milhões de pessoas, uma das maiores bilheterias desde a chamada "retomada". O roteiro é simples de propósito para provocar riso fácil (não tem como não rir do veterano Tony Ramos falando "estou me sentindo uma vadia") e quem já viu o trailer conhece o filme todo. Aliás, lição número um ensinada por Hollywood: coloque as melhores piadas do seu filme no trailer. O casal Helena (Glória Pires) e Claudio (Tony Ramos) estão passando por um crise no relacionamento até que decidem se separar. A filha deles (Isabelle Drummond, aquela criança irritante que fazia a Emilia do Sítio do Pica-Pau Amarelo) está grávida e pretende contar a mãe, que mais cedo ou mais tarde todos sabem que vira o pai. O início dava pinta de que partiria logo para a comédia, mas ele tem o mesmo ritmo do primeiro e o prólogo dura um terço do filme, incluindo referências ao longa original (quem não se lembrou dele quando viu Gloria Pires acordando de manhã?). Se Eu Fosse Você 2 conta com presenças ilustres de Maria Gladys, Ary Fontoura (que fase), Chico Anysio e Marcos Paulo e outras nem tão ilustres assim (Adriane Galisteu). A cena em que discutem o divórcio quando já estão trocados é apontada pelo público como a mais engraçada e realmente é. Os críticos mais puritanos dirão que Daniel Filho vai na contra-mão do que o Brasil sabe fazer em termos de cinema. Desde que Glauber Rocha, em 1964, nos deu Deus e o Diabo na Terra do Sol houve uma desconstrução do cinema nacional, criando ali o ponto inicial de uma identidade que carregaríamos ao longo do tempo. E somos reconhecidos no mundo inteiro por desdobramentos daquele filme que mostrou a cara do nosso país pela primeira vez. Bebemos da fonte de Cacá Diegues, das adaptações de Nelson Rodrigues e Jorge Amado e nos últimos anos apostamos nos dramas urbanos inaugurados por Pixote e aprimorado por Cidade de Deus e derivados. Mas domesticamente é bom fazer filmes que funcionam para o povo, mesmo que não pareça filme nacional (e tem gente que acha isso até uma qualidade). É importante fazer dinheiro. Nota 5

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito


Estréia - 29/8 - Filme brasileiro que foi a febre dos camelôs em 2008. É um longa bem realizado (orçamento de R$ 1 milhão) e só possui uma cena de mal gosto, relacionada ao exorcismo. De resto, vai indo bem, se concentrando na vida do médico e político que se converte ao espiritismo e vira um dos grandes defensores da religião. Porém, a segunda metade (e o filme é curto, 75 minutos) é extremamente chapa-branca e se transforma num debate desnecessário, dando a impressão que precisavam de mais algumas cenas pra completar o filme, deixando o espectador frustrado. Quem quer assistir sem qualquer julgamento não consegue, ainda mais com a mensagem anti-aborto, manifestamente panfletária no final. Uma pena. Nota 3


Maré - Nossa História de Amor


Estréia - 4/4 - O cinema brasileiro vem jogando todas as suas fichas no tema "favela". Maré é um musical passado na Favela da Maré (óbvio) em mais uma adaptação de Romeu e Julieta. A primeira música é insuportável, pouca coisa acontece até a metade do filme e a produção é bem amadora (incluindo som horrível e atuações fracas). Algumas coisas dão certo (como a interpretação de Minha Alma do Rappa), mas outras afundam Maré, que tem um final pouco inspirado e não pede pra ser levado a sério quando te leva ao encontro de uma versão de Ciranda Cirandinha liderada por Marisa Orth. Nota 1


domingo, 4 de janeiro de 2009

Ensaio Sobre a Cegueira




Estréia - 12/9 - Muitos consideram a decepção do ano, mas para mim foi a grande surpresa. Uma produção corajosa de Fernando Meirelles que choca, perturba e incomoda. Precisa ter estômago forte para assistir esse estudo sobre a moral humana, principalmente na tela grande. Eu considerei uma experiência única, mas entendo a recepção negativa da maioria. Nota 9